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20.4.12

viradaculturalSP-mixtape#7



Confesso que minha primeira reação foi de surpresa total, aquela sensação de ‘é isso mesmo?, ‘tem certeza?’. E ainda por cima de graça? A Virada Cultural de São Paulo este ano superou todas as expectativas com uma aula de curadoria, programação inspiradíssima lembrando os melhores anos dos antigos Free Jazz e Tim Festival com toques de BMW Jazz Festival, Percpan e Back2Black. E como se tudo já não parecesse perfeito demais, ainda homenageia a África com dois convidados ilustríssimos tocando em sequência no horário nobre do seu palco mais roots: nada mais nada menos do que Tony Allen e Ebo Taylor, na Praça Júlio Prestes, dia 5, a partir das 20h30 (antes, Ray Lema abre a programação). Prepare o coração também porque é mais do que provável ver os dois dividindo microfones já que Tony acaba de fazer participação no novo disco de Ebo, o recém-lançado Appia Kwa Bridge. A super noitada black na Praça Júlio Prestes terá na sequência mais dois showzaços: Seun Kuti, às 2h30, e Bixiga 70, às 5h. No dia seguinte, a festa segue com reggae jamaicano clássico do Toots and the Maytals, às 13H (cancelado), e Abyssinians, às 15h30. GilbertoGil fecha o bailão histórico, às 18h.

Se na Júlio Prestes o assunto é África, na Praça da República o som continua blackíssimo, mas com jazz dominando e mais dois nomes clássicos no horário nobre: o mito McCoy Tyner, pianista do quarteto de John Coltrane em ‘A Love Supreme’, às 19h, o saxofonista Lou Donaldson, presença constante nas coletâneas groove da Blue Note, às 21h30, e o blaxploitation de Roy Ayers, à 0h. Para fechar, no dia seguinte tem o soul relax da revelação da Daptone Records, Charles Bradley, às 15h. E agora? Que palco escolher? Mixtape do blog esquenta para os shows e ajuda a tirar a dúvida. Ou aumentar...

Confira aqui a programação completa com mais de 900 atrações em quase 100 palcos espalhados por SP (o custo do evento foi estimado em R$ 8 milhões). Abaixo, lista das doze músicas da mixtape. E, depois, minidoc com Ebo Taylor + Tony Allen e Bixiga 70 no palco.  

01 > Ebo Taylor - Nga Nga
02 > Tony Allen - No Discrimination
03 > Bixiga 70 - Tema di Malaika
04 > Seun Kuti - African Soldiers
05 > Lou Donaldson – Its your thing
06 > McCoy Tyner - Blues on the corner
07 > Toots & the Maytals - 54-56 Was My Number
08 > Abyssinians - Satta Massagana  
09 > Charles Bradley - The World (Is Going Up In Flames)
10 > Roy Ayers - King George
11 > Toots & The Maytals - Pressure Drop
12 > Tony Allen – Secret Agent

 


11.11.11

afrobeat-mixtape#1

Disco de estreia do Bixiga 70, bigband revelação de SP, é inspiração para primeira mixtape do blog com 12 faixas de álbuns de afrobeat recém lançados que merecem lugar cativo no iPod. Os franceses do Fanga abrem a sequência com Tony Allen como convidado. Tem ainda a nova do Tinariwen, o projeto coletivo de Damon Albarn, ex-Blur e Gorilaz, gravado no Congo, e mais Budos Band, Vieux Farka Toure e algumas raridades clássicas dos anos 60 e 70, de K.Frimpong a Mulatu Astatke e Orchestre Poly-Rythmo. Ouça, curta e compartilhe.



01 > Fanga - Crache La Douleur Feat. Tony Allen
02 > Bixiga70 - Luz Vermelha
03 > Budos Band - Hidden Hand
04 > Tinariwen - Amassakoul 'N' Tenere
05 > Shaolin Afronauts - Kilimanjaro
06 > Damon Albarn DRC Music - Customs
07 > Mulatu Astatke - Emnete
08 > K. Frimpong - Aboagyewaa
09 > Fela Kuti - Colonial mentality
10> Vieux Farka Toure Feat. Soulive - Watch Out
11 > Poly-Rythmo - Se Tche We Djo Mon
12 > Souljazz Orchestra - Agbara

4.11.11

bixiga70-cassiaeller-bembeya-railband



  


Bixiga 70 (2011)


Budos Band, Nomo, Kokolo, Daktaris, Fanga, Shaolin Afronauts… a lista de bandas que partem do afrobeat para fazer um som quase todo instrumental com referências ao funk e jazz é enorme lá fora, mas ainda faltava um disco de peso no Brasil para colocar o país definitivamente no mapa dessa nova cena black mundial. Pois esse álbum já tem nome (o mesmo da banda) e pode ser baixado de graça na web: ‘Bixiga 70'.

Depois de um série de shows concorridíssimos em SP, a bigband formada por dez músicos com longa estrada na cena black paulistana causou burburinho antes mesmo da estreia e seu primeiro disco era um dos lançamentos mais aguardados de 2011. Com doze músicas e 47 minutos de duração, o álbum foi além superando expectativas e mostrando que o grupo tem fôlego para brigar de igual para igual com qualquer banda no mercado internacional de afrobeat. É um disco que pode virar histórico por marcar a entrada oficial do país nessa cena que vem fervendo na Europa e EUA. Vale lembrar que o álbum de estreia da carioca Abayomy está no forno e deve ser lançado até início de 2012.

Em entrevista ao site do Estadão, o baterista Décio 7 falou sobre as influências da banda: ‘As pessoas acabam associando o som do Bixiga 70 ao afrobeat. Mas, na verdade, nossa inspiração vem de várias Áfricas, desde Guiné ao batuque afro filtrado pelo nosso som tropical, que chegou a nós através de Baden, da música de Gil e de Chico Science’.

O nome Bixiga 70 é uma homenagem a duas referências fundamentais no som e na história da banda. A primeira e mais óbvia é o Africa 70 de Fela Kuti; a outra é o estúdio Traquitana, berço de álbuns de nomes como Guizado, Lucas Santtana e Leo Cavalcanti, localizado no número 70, da Rua Treze de Maio, no Bixiga. Daí então o nome que virou sinônimo de boa música black na noite paulistana.





Cássia Eller – O Marginal (1992) + Cássia Eller (1994) + Cassia RockEller (2000)

Escalado para tocar na segunda noite do Rock in Rio 3, em 2001, na Cidade do Rock, Dave Grohl, baterista do Foo Fighters, ficou tão impressionado com a versão de Cássia Eller para ‘Smell Like Teen Spirit’ que fez questão de conhecer a carioca nos bastidores. A notícia que Grohl queria Cássia abrindo shows do Foo Fighters nos EUA só vazou após a morte da cantora, em dezembro do mesmo ano, há exata uma década. Para quem viu o furacão Cássia Eller ao vivo ensandecida abrindo a programação no Palco Mundo sabe que seu adeus, aos 38 anos, foi uma das maiores perdas de um artista jovem e em plena atividade na história da MPB – comparada à morte de Chico Science, quatro anos antes, ou a de Elis Regina e Clara Nunes nos anos 80.

Para lembrar os dez anos sem Cássia Eller, estão programados lançamentos nos próximos meses de livros, DVD, filme e algumas músicas inéditas – ‘Relicário - As canções que o Nando fez pra Cássia cantar’ encabeça a lista de homenagens e já está à venda. Outro item aguardado é a caixa com nove CDs prevista para estar nas lojas no próximo dia 22 de novembro.

Entre os discos que merecem sair do baú e estar sempre prontinhos para tocar no iPod estão ‘O Marginal’, de 1992, segundo na carreira de Cássia, onde aparecem pela primeira vez o blues ‘Hear My Train Comin’ e a psicodélica ‘If Six Was Nine’; o álbum homônimo ‘Cássia Eller’, de 1994, com versões azeitadas de ‘Metrô Linha 743’ e ‘Coroné Antônio Brito'; e a coletânea ‘Cássia Rock Eller’, com destaque absoluto para o clássico do Nirvana que impressionou Grohl, simplesmente obrigatório em qualquer playlist roqueira.

Ouça todas essas na playlist. Abaixo, veja uma das últimas entrevistas de Cássia Eller, no ‘Jô Soares’, e trechos do show histórico na Cidade do Rock. E ela bem que tinha avisado que o Rock in Rio seria o seu Woodstock... rip.

  

Bembeya Jazz National – Bembeya (2002) + Super Rail Band - Kongo Sigui (2003)

A África começou o século 20 com apenas três países independentes: África do Sul, Libéria e Etiópia. Entre 1957 e 1962, esse número disparou e o continente ganhou nada menos que 29 novas nações, entre elas algumas que virariam sinônimo de boa música, como Gana, em 1957, Guiné, em 1958, e Nigéria, Senegal, Benim e Mali, todos em 1960. Junto com o processo de libertação política das colônias, os governos locais decidiram apostar na música como estratégia de afirmação da cultura local incentivando a formação de big bands que acabaram virando clássicos da música black mundial ao misturar sons como highlife, voodoo e juju com influências do soul, rock e funk. 

Orquestras como Baobab, do Senegal, e Poly-Rythmo, do Benin, já ganharam post aqui no blog. Mas como o baú é inesgotável, a playlist hoje tem faixas de mais dois grupos incríveis: a Bembeya Jazz National, formada logo após a independência de Guiné, em 1961, e a excelente Super Rail Band, uma das primeiras big bands do Mali, de 1970. Ambas estão hoje em atividade fazendo turnês depois de ressuscitarem nos anos 90 aproveitando a nova onda black de relançamentos.  

Ouça na playlist uma seleção de dois discos clássicos da música africana: ‘Bembeya’, de 2002, primeiro CD de inéditas da Bembeya Jazz National depois de uma parada de 14 anos (com o grande guitarrista Sekou Diabate inspiradíssimo), e Kongo Sigui, da Rail Band, com outro grande músico africano em excelente forma, o também guitarrista Djelimady Tounkara. Ambos altamente recomendados. 

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