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14.6.12
jazz2012-videos
Ambrose Akinmusire, Shamarr Allen, Trombone Shorty... a lista de grandes nomes
da nova geração do jazz que passaram pelo Brasil em 2012 só aumenta. O ano de gala na música instrumental teve também shows antológicos de figurões da velha guarda. Na Virada Cultural de SP, McCoy Tyner e Lou Donaldson se apresentaram na mesma noite, de graça. Em junho, SP e RJ enfileiraram uma sequência histórica de três festivais internacionais de altíssimo nível: Bourbon Festival Paraty, Rio das Ostras Jazz and Blues e o BMW Jazz Festival.
oblogblack saiu à caça de vídeos com grandes momentos dos melhores shows. Se a qualidade das gravações nem sempre é das melhores, vale pelo registro para quem não pode ir e ficou só na fissura lendo as críticas nos jornais. Veja lista completa de todos os festivais de jazz pelo país até final do ano no RJ, SP, MG e RS. Abaixo, solos incendiários em vários palcos. Dá o play, aumenta a tela e sente o som. Para abrir, destaques do BMW Jazz Festival.
Trombone Shorty, no show do Rio
'All Blues', com Chick Corea
Trompetista Shamarr Allen, em Paraty
Jazz rolando no meio da rua, também em Parati
Souljazz clássico estilo Blue Note com Lou Donaldson, na Virada Cultural de SP...
... e gênio do piano McCoy Tyner, na mesma noite
7.6.12
bmwjazzfestival-mixtape#7
BMW Jazz Festival chega ao seu segundo ano com programação
de luxo e nomes de peso entre revelações e velha guarda da música black, além de um novo palco em SP e maior número de atrações no Rio, tudo com assinatura e curadoria da dupla Zuza Homem de Melo e Monique
Gardemberg, ex-Free Jazz e Tim Festival. Se na estreia em 2011 três nomes despontavam como destaques, os saxofonistas Wayne
Shorter e Joshua Redman, e a diva black Sharon Jones, em 2012 está difícil
apontar o melhor dia. Gosta de funk-soul? A escolha então é certeira: Fred
Wesley, Maceo Parker e Pee Wee Wiils, trio responsável por conduzir a banda
mais groove da história, os JBs, de James Brown. O encontro
reeditado pela primeira vez em 2010 após mais de 20 anos de separação acontece
dia 9 (sábado), em SP, na Via Funchal, dia 10 (domingo), na área externa do Auditório Ibirapuera,
de graça, e 12 (terça), no Oi Casa Grande, no Rio.
Outro showzão que promete é o da revelação Trombone Shorty.
Descoberto por Lenny Kravitz ainda adolescente, o músico de Nova Orleans foi
indicado ao Grammy no seu disco de estreia, ‘Backatown’, e já acumula
participações em shows de Jeff Beck, U2 e Norah Jones. Mas se prefere um clima
mais cool em uma noitada clássica de jazz, pode anotar: o pianista Chick Corea,
16 vezes ganhador do Grammy (nada menos que 56 indicações), toca dia 8
(sexta), em SP, e 11 (segunda), no RJ. Corea foi tecladista de Miles Davis
no antológico ‘Bitches Brew’ (ouça na mixtape) e volta ao Brasil ao lado de Stanley Clark
retomando projeto dos anos 70, ‘Return to Forever’.
Outra apresentação
daquelas imperdíveis é a do americano apontado pela DownBeat como grande aposta
do jazz para 2012, Ambrose Akinmusire, só 29 anos e talento para virar um
gigante na história da música black (ouça playlist com faixas do disco 'When the Heart Emerges Glistening'). Aqui, porém, a única crítica para organização: o trompetista só faz show em SP (dia 8, sex) e não vem ao Rio.
Para ajudar na escolha ou entrar no clima, oblogblack
preparou uma mixtape com nove músicas com o top 5 das melhores atrações (serão
ao todo 9 shows em SP, mais dois de graça no Ibirapuera, e seis no Rio). Outros
destaques do BMW Jazz Festival são o saxofonista Charles Llloyd (ex-Cannonball
Adderley, BB King, Howlin' Wolf e Beach Boys), o grupo The Clayton Brothers e a
revelação Ninety Miles. Programação caprichadíssima, só fera e promessa de
shows antológicos.
Confira aqui a programação completa e todas as informações
sobre BMW Jazz Festival. Abaixo, as doze faixas da mixtape.
1 > Fred
Wesley - Breakin' Bread
2 >
Trombone Shorty – Horn Jam
3 >
Miles Davis (Chick Corea) - Miles Runs the Voodoo Down
4 >
Ninety Miles - Nengueleru
5 > Clayton
Brothers - Ultra Sensitive
6 > Fred
Wesley - Damn Right I am Somebody
7 > Trombone
Shorty - Backatown
8 >
Chick Corea, Clarke & White - Light as a Feather
9 > Maceo
Parker And All The King's Men - Doing Their Own Thing
18.5.12
kashmerestageband-elmorejames-moussa
>> playlist
Kashmere
Stage Band - Texas Thunder Anthology, 1968 -
1974 (2011)
Final dos anos 60, movimento funk pegando fogo com James
Brown cheio de moral e fama de semideus para negros nos EUA. Tempo de psicodelia, solos incendiários de Jimi Hendrix, improvisações
e misturas de Miles Davis, e jovens black-flower-power pirando
em todos os tipos de arte. Em Houston,
Texas, estado do ex-presidente Bush e na época um dos mais racistas dos EUA, um
professor de música ex-integrante da banda de Count Basie voltava de um show de Ottis Redding quando teve a ideia que mudaria
sua vida: transformar a orquestra da escola formada em sua grande maioria por estudantes
negros de menos de 18 anos em uma bigband de funk. O projeto deu tão certo que
a Kashmere Stage Band ganhou fama em todo país ao ficar praticamente invencível em duelos arrepiando com sets de
funk, soul e jazz. Conrad Prof Johnson
foi diretor, arranjador e compositor do combo que chegou a tocar com quase 30
integrantes antes de encerrar carreira no final dos anos 70. Muitos de seus integrantes então deixaram a música, mas não para sempre.
Em 2003, os discos
da KSB começaram a ser relançados, muitos deles praticamente inéditos, e a fama
da orquestra voltou a se espalhar. O ponto alto, no entanto, aconteceria em
2011 com o documentário 'Thunder Soul',
produzido por Jamie Foxx (de 'Ray'). Premiado
em vários festivais de cinema pelos EUA e Europa, o filme registra o reencontro de Conrad, então
com 92 anos, com sua antiga black band para apresentações impregnadas de groove
e muita emoção. Junto com o doc, a Now Again Records lançou o discaço 'Anthology
– 1968-1974' resgatando gravações originais da banda em seu auge com pegada similar
aos JBs e Funkadelic. Há no álbum ainda versões black para clássicos da música
americana como 'Raphsody in Blue' e 'Take 5'. Se você curte deepfunk, vale
encomendar no site da gravadora (vinil triplo ou CD duplo +DVD). Detalhe: ambos
os combos acompanham livreto caprichadíssimo recheado de fotos e o curta-metragem 'Texas Jewels:
The Making of Texas Thunder Soul', produzido por ninguém menos que o agora
superstar da música eletrônica Flying Lotus.
Veja abaixo trailer de 'Thunder Soul' e
tire a prova. Os garotos tocavam muito. E, no doc, os agora vovôs não perderam
o groove e também quebram geral. Belos solos, improvissos geniais e groove
pesadíssimo.
Elmore James - Whose Muddy Shoes (1960)
Inspiração para músicos como BB
King e Chuck Berry e eleito para o Hall da Fama por sua influência no rock, o
americano do Mississippi Elmore James, rei da slide guitar, já
havia sofrido dois infartos antes da parada cardíaca fatal em 1963, com apenas 45 anos. Logo
depois, roqueiros como Rolling Stones, Cream e Yardbirds colocariam o
blues na
moda jogando luz sobre nomes até então pouco falados que virariam ídolos
de
jovens na Europa e EUA como Muddy Waters e Howlin’ Wolf. Elmore James certamente seria um dos mais celebrados pelos novos fãs.
Disco de 1960,
'Whose
Muddy Shoes' tem músicas de duas sessões, uma gravada no mesmo ano e outra de 1953, ambas com grandes blueseiros na retaguarda como Little
Johnny Jones no
piano, JT Brown no sax tenor e Homesick James acompanhando na guitarra
base.
Estão lá também todos seus clássicos como 'Stormy Monday', famosa depois
em
versões de Eric Claton e Buddy Guy, 'Sun is Shining', 'Talk to
Me Baby', 'Madison Blues', a homônima 'Whose Muddy Shoes', e acima de
todas, 'Dust
My Boom', seu primeiro hit e um dos maiores clásicos do blues de todos
os
tempos.
A música black dos EUA teve grandes guitarristas slide como
Robert
Nighthawk e o excelente Earl Hooker, mas Elmore James de fato merece a
coroa.
Apesar das gravações muitas vezes sem recursos, sobra talento, o
vozeirão é
soberbo e os solos carregados de técnica e sentimento. Para ter sempre à
mão na estante da sala, com um scotch ainda melhor. Veja abaixo 'Stormy Monday' com Clapton.
Moussa Doumbia – Keleya (2007)
Pérola da música africana e ainda pouco conhecido pelo
grande público, o saxofonista Moussa Doumbia morou sua vida quase inteira na
Costa do Marfim, mas nasceu no Mali onde era também conhecido como James,
provavelmente em referência a James Brown, sua grande influência e primeiro
nome a vir a cabeça quando ouvimos petardos gritados, funkeados e psicodélicos
como 'Keleya', nome do seu único disco com distribuioção internacional lançado
em 2007. Moussa trocou o Mali por Abidjan no começo da década de 70 e durante anos se apresentou no Boule Noir, casa de shows de um francês no bairro movimentado
de Treichville. Na época, o fenômeno Fela Kuti ainda não havia
conquistado o país vizinho onde quem dava as cartas era o deepfunk de James
Brown. Perto do Boule Noir ficavam as maiores gravadoras da Costa do Marfim, como a Lido Musique, Sacodis e Saffiedine. Mas os sons envenenados do saxofonista não faziam a cabeça dos produtores locais mais interessados em gravar discos com
influência cubana, então hit na costa oeste africana. Moussa, no entanto,
atraiu atenção da Société Ivoirienne du Disque que havia
acabado de se estabelecer no país com o músico americano Greg Skelton como
diretor artístico. Era a pessoa certa. Com estúdios de gravação e
distribuição razoável, a SID gravou entre 1974 e 1978 o funkão pesado de Moussa, só que o sucesso não veio. Seu nome ganharia destaque bem mais tarde, nos anos 90 anos, a partir
das coletâneas de música africana como a excelente ‘World Psychedelic Classics’,
de 2005.
Lançado em 2007 pelo selo Oriki Productions, 'Keleya' dá um
panorama de toda sua produção nos anos 70. Moussa voltou para França na década de
80, trabalhou em uma loja de discos de salsa, de Richard Dick, e morreu ainda
sem ter seu enorme talento reconhecido. Para deixar rolar e esquentar a pista.
30.3.12
maceo-dirtybeaches-mulligan-baker
>> playlist
Maceo Parker - Roots
Revisited (1990)
Programão imperdível para os fãs do soul-funk de James Brown
que curtem um bailão instrumental de altíssimo nível no palco. Depois de trazer
o fenômeno Sharon Jones junto com os Dap-Kings e o excepcional Wayne Shorter, em
2012, o BMW Jazz Festival confirmou a vinda do saxofonista dos JBs, Maceo
Parker, para apresentação, (somente) em SP, em junho, ao lado dos
parceiríssimos Fred Wesley e Pee Wee Ellis. Idolatrado por seus solos em
petardos black de James Brown, como ‘Papa's Got a Brand New Bag’ e ‘Cold
Sweat’, Maceo Parker teve passagens arrasadoras também pelas bandas dos mitos
George Clinton e Bootsy Collins antes de iniciar uma sólida carreira à frente da sua própria banda. Seus primeiros discos solo são do começo dos anos 70, ainda sob
forte influência do som dos JBs. Mais à frente, Parker experimentou com o jazz,
o hip-hop e até cantou relembrando o início da carreira ao lado de Ray Charles.
‘Roots Revisited’ é de 1990 e marca o reencontro do
saxofonista com os mesmos Fred Wesley e Pee Wee Ellis que virão a São Paulo. Outros
destaques da sua discografia são ‘Southern Exposure’, de 1993, de novo com
Wesley e Ellis, ‘Funk Overload’, de 1998, com versões para clássicos de Sly
Stone e Marvin Gaye, e seu último disco, o duplo ‘Roots and grooves’, de 2007,
dividido em dois, o primeiro um tributo a Ray Charles, o segundo batizado de ‘Back
to funk’, em que ele volta aos tempos de JBs e ao soul-funk-groove anos 70. Sonzeira
instrumental da melhor qualidade com altas doses de jazz.
Dirty Beaches –
Badlands (2011)
Meio trilha de cinema, totalmente hipnótico. De cara, o som
do Dirty Beaches causa uma estranheza, mas provoca, tem um pé no passado
e soa moderno, lo-fi, caseiro, de garagem. Primeiro disco oficial do taiwanês
criado no Canadá, Alex Zhang Hungtai, à frente do projeto Dirty Beaches, ‘Badlands’
está recheado de músicas bizarras que cairiam como uma luva em filmes de David
Lynch ou Gus Van Sant. Tem um pouco de Jesus and
Mary Chain, Velvet Underground e até Elvis. Comparado a nomes da cena de NY dos anos 70, como
Suicide, e também a guitarristas rockabilly como Eddie Cochran e Roy Orbison, o
Dirty Beaches começou lançando suas faixas somente em cassete até fechar a
estreia com ‘Badlands’ na gravadora Zoo Music, de San Diego.
Em 2012, seu nome
correu também o mundo do surfe ao ter uma faixa sua incluída no blog do americano
Dane Reynolds, candidato a campeão mundial, como trilha para uma free-session
no México. A sujeira-roqueira-psicodélica-surreal de ‘Badlands’ vale pela
proposta lo-fi, inusitada e bem longe do mainstream. Não é para um dia de sol, nem para
relaxar. Mas provoca.
The Best of the Gerry Mulligan Quartet with
Chet Baker 1952-57 (2012)
Com pouco mais de 20 anos de idade, Gerry Mulligan e Chet
Baker já chamavam atenção no jazz dos anos 50 não só pelo imenso talento no palco como
solistas, mas também fora dele como compositores. Além disso, eram ainda um dos
poucos músicos brancos em um ritmo totalmente dominado pelo talento e groove
dos negros (Mulligan era descendente de irlandeses, e Baker, o James Dean do
jazz).
Antes de sua fase cool, Chet Baker tocou com Charlie Parker no
mesmo posto que já havia sido ocupado por nomes como Dizzie Gillespie e Miles
Davis - e era abertamente elogiado por Bird. Já Mulligan foi um dos músicos
chave na gravação do clássico ‘Birth of the Cool’, de Miles, de 1950. São de
sua autoria, por exemplo, três clássicos do disco, ‘Jeru’, ‘Rocker’ e ‘Venus de
Milo’.
A caixa com cinco CDs ‘The Best of the Gerry Mulligan
Quartet with Chet Baker’ resgata as primeiras sessões da dupla em formato ‘quarteto
sem piano’, de 1952, e o reencontro em 1957, após a prisão de Mulligan por
posse de drogas. O disco tem ainda gravações com a dupla atuando em quintetos e
até em tentetos, ao lado de cracaços como Lee Konitz, Chico Hamilton e Bud
Shank. Outro achado são as faixas gravadas no Festival de Newport. Em 1955, por
exemplo, Mulligan e Baker dividiram o palco com Clifford Brown, Dave Brubeck e
Paul Desmond. Cool jazz de altíssimo nível em uma daquelas caixas para se
guardar na estante, bem à vista, e sacar no final de tarde ou na madrugada.
2.12.11
sambanzo-darondo-ruthtafebe
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Sambanzo - Etiópia
O saxofonista de SP Thiago França teve um 2011 intenso e já deixou engatilhados álbuns que prometem para 2012. Depois de participar ativamente de discos que ganharam destaque no ano ao lado de Criolo, Gui Amabis e Rômulo Fróes, e gravar os novos de Céu e Rodrigo Campos, ambos ainda inéditos, Thiago se prepara para lançar o primeiro CD do seu projeto solo, Sambanzo (palavra criada pelo próprio misturando samba e banzo, termo africano para saudade), gravado com os amigos Kiko Dinucci, na guitarra, Marcelo Cabral, produtor de Criolo, no baixo, além de Pimpa e Samba Sam, na bateria e percussão.
Em entrevista excelente ao blog Radiola Urbana (leia texto completo), Thiago fala sobre o caminho do Sambanzo até o disco, batizado com outra homenagem à Africa, ‘Etiópia’. Segundo o músico, que começou a carreira fazendo samba acompanhando feraças como Nei Lopes, Nelson Sargento e Beth Carvalho, o quinteto virá com um ‘gafieira universal’ com jazz, forró, carimbó, guitarrada e até pontos de umbanda: ‘Tudo com muito suingue, veneno, estruturas elásticas e descompromissadas para fazer um belo baile’.
Em entrevista excelente ao blog Radiola Urbana (leia texto completo), Thiago fala sobre o caminho do Sambanzo até o disco, batizado com outra homenagem à Africa, ‘Etiópia’. Segundo o músico, que começou a carreira fazendo samba acompanhando feraças como Nei Lopes, Nelson Sargento e Beth Carvalho, o quinteto virá com um ‘gafieira universal’ com jazz, forró, carimbó, guitarrada e até pontos de umbanda: ‘Tudo com muito suingue, veneno, estruturas elásticas e descompromissadas para fazer um belo baile’.SAMBANZO (single) by thiagosax
Mais um projeto classe A de Thiago França e ótima dica é o disco ‘Metá-metá’, também com Kiko Dinucci e outra parceira das antigas nos vocais, Juçara Amaral. Esse já está disponível para download grátis. Abaixo, o saxofonista solando no show de Criolo, e com o Sambanzo, ambos em SP.
Darondo tinha tudo para estourar na cena funk-soul dos EUA nos anos 70: abriu show para James Brown, fez sucesso com seu primeiro single, estava cercado de músicos incríveis da Califórnia e tinha em mãos pelo menos uma dezena de petardos para bombar nas pistas. Só que a indústria da música é cheia de armadilhas. Sua carreira começou a degringolar em 1975 quando Darondo (também conhecido na época como Darondo Pullia e até Dorando) rompeu com a gravadora que lançaria seu primeiro disco solo. Decepcionado, largou tudo, chegou a trabalhar como cafetão nos anos 80 e depois foi morar nas lhas Fiji, no Pacífico.
Suas gravações da década de 70 ficariam esquecidas até 2005 quando o single ‘Didn’t I’ acabou sendo escolhido para abrir a coletânea cheia de pérolas ‘Gilles Peterson Digs America’. Com a música tocando nas rádios e seu nome novamente circulando entre DJs, pesquisadores e jornalistas, Darondo foi convidado para fazer seu primeiro show em 30 anos até lançar, em 2006, seu disco de estreia, ‘Let My People Go’.
Aí sua vida definitivamente mudou: Darondo acabou incluído na lista da NPR entre os artistas ‘para se prestar atenção’ de 2008 e suas músicas foram usadas até em trilha de séries. Hoje, ele é finalmente uma realidade na cena funk-soul dos EUA.
‘Listen To My Song: The Music City Sessions’, seu segundo disco, vai ainda mais fundo nos arquivos resgatando músicas inéditas de sessões registradas entre 1973 e 1974, inclusive a versão original de ‘Didn’t I’. Tesouro indispensável para quem curte groove estilo James Brown com toques de jazz e graves na medida.
Ruth Tafebe and Afrorockerz - Holy Warriors (2007)
A voz lembra Erikah Badu com um leve sotaque francês. O instrumental é poderoso com reforços que dispensam apresentação como o baterista Tony Allen e o vocalista e percussionista Amayo, do Antibalas. Lançado em 2007, ‘Holy Warriors’ é o primeiro e único disco de Ruth Tafebe ao lado dos Afrorockerz, o que é pena pois se trata de um dos melhores álbuns de afrobeat dos últimos anos com voz feminina. São dez faixas no total, todas em inglês, algumas para entrar e não sair mais das playlists de afro-soul como ‘Wâri’ e ‘Carry on’. Um som que resgata o afrobeat roots de Fela Kuti misturando com malícia do soul e o groove do rap.
24.11.11
sharonjones-buddyguy-budpowell
>> playlist
Sharon Jones – Soul Time (2011)
Versão feminina do mestre James Brown, o fenômeno Sharon Jones chega ao seu quinto disco fazendo uma limpa no arquivo resgatando músicas sensacionais que não haviam sido lançadas antes em CD. Com onze faixas e apenas uma inédita, ‘New Shoes’, ‘Soul Time’ fica longe de parecer uma daquelas coletâneas caça-níqueis, é muito mais um ajuste de contas para não deixar nenhum clássico guardado no baú. São dez faixas resgatadas de trilhas, coletâneas e singles lado B como os petardos ‘Longer and Stronger’, do filme ‘For Colored Girls’, ‘Inspiration Information’, cover de Shuggie Otis para o projeto Red Hot, e ‘Genuine Part 1 & 2’, de um vinil 45rpm de 2002, que abre o álbum com os sempre excelentes Dap-Kings em altíssima voltagem. Nunca é demais lembrar que o combo da gravadora Daptone, formado por dez músicos de NY, acompanhou também Amy Winehouse em ‘Back to Black’.
Quem viu a passagem do furacão Sharon Jones por Rio e SP, no BMW Jazz Festival, em junho, certamente vai se deliciar com ‘Soul Time’. Para quem não conhece, mais uma chance para ter nos arquivos os petardos funk-soul dessa que é uma das maiores revelações da música black dos últimos anos. Sensacional. Abaixo, Sharon Jones na Amoeba, principal loja de discos dos EUA, na Califórnia.
Idolatrado pelos maiores guitarristas roqueiros da história como Jimi Hendrix, Eric Clapton e Stevie Ray Vaughan, Buddy Guy continua em plena forma aos 74 anos tanto no palco quanto no estúdio. Em 2010, ganhou seu sexto Grammy com o semi-biográfico ‘Living Proof’, escolhido também pela BBC como melhor disco de blues do ano. Além dos riffs inconfundíveis tirados na clássica guitarra de bolinha branca, o álbum marca ainda o primeiro registro em CD da dobradinha com o mestre BB King na balada ‘Stay Around a Little Longer’. O outro convidado de Buddy Guy é o também guitarrista Santana em ‘Where the Blues Begin’.
Ao longo das doze faixas, o músico da Louisiana criado em Chicago lembra sua trajetória dentro e fora dos palcos sem soar nostálgico ou apelativo, muito pelo contrário (I’m 74 years young / there’s nothing I haven’t done / I’ve drunk wine with kings and The Rolling Stones), passando por todos estilos do blues e lembrando influências como Howlin’ Wolf e Muddy Waters. Veja baixo Buddy Guy em ação dividindo palco com os Stones.
Bud Powell forma com Charlie Parker e Dizzy Gillespie a santíssima trindade do bebop que revolucionou a música black do pós-guerra nos EUA mostrando uma nova forma de se fazer jazz. Pianista nascido em NY, em 1922, Powell surpreendia pela velocidade com que solava com a mão direita, mas sua grande revolução foi criar uma nova técnica usada até hoje ao liberar de vez a mão esquerda para acordes. Os adjetivos ‘amazing’ e ‘genious’ que dão nome aos seus dois principais discos (‘The Amazing Bud Powell’ e ‘The Genious of Bud Powell’) podem soar pretensiosos, exagerados, narcisistas – na verdade, dificilmente foram ideias do próprio – mas se encaixam perfeito com seu estilo.
Powell conseguiu manter uma forma exuberante mesmo após agressão na cabeça sofrida durante confrontos com policiais em protesto contra racismo em 1944. Sofrendo sempre com dores de cabeça e passando por tratamentos pesados que incluíam até choques elétricos, o músico criou álbuns antológicos ao lado de figuras centrais do jazz como Fats Navarro, Sonny Rollins e Max Roach (todas essas parcerias estão incluídas na playlist). Clássicos como ‘Un Poco Loco’ e ‘Hallucinations’, standards do jazz gravados por ele, refletem um pouco os problemas enfrentados por Powell após a agressão.
Bud Powell morreu cedo, aos 44 anos, em 1966, logo após uma temporada de cinco anos em Paris. É um dos grandes nomes do jazz de todos os tempos, certamente um dos quatro maiores pianistas da história ao lado de Duke Ellington, Oscar Peterson e do amigo Thelonious Monk (foto), e influência direta para músicos da geração seguinte, como Bill Evans e McCoy Tyner. Abaixo, Powell tocando 'Round Midnight', de Monk, e 'Blues in The Closet', em Paris.
21.10.11
soultosoulgana-fanga-bobbyhutcherson
>> playlist
Gana completa 40 anos em 2011 do seu show internacional mais histórico e até hoje lembrado no país por quem estava lá. Foram mais de 12h de apresentações de ídolos soul-funk dos EUA na praça principal da capital Accra e pelo menos uma semana de eventos oficiais envolvendo os convidados. Na primeira lista, James Brown, grande ídolo não só em Gana mas em toda a África – e que um ano antes havia feito um show arrasador na Nigéria – era a primeiríssima opção. Outros nomes cotados foram Aretha Franklin, Louis Armstrong e Booker T & The MG's, mas todos negaram. A lista final, no entanto, ficou também recheada de estrelas garantindo um daqueles bailões clássicos para realmente ficar na memória.
‘Até hoje não teve nada igual no país’, confirma o criador do excelente blog Osibisaba, feito em Accra, dedicado à música de Gana com discos, fotos e playlists de afrobeat, gospel, hiplife e highlife.
A estrela de ‘Soul to Soul’ foi Wilson Pickett, dos clássicos ‘Mustang Sally’ e ‘In The Midnight Hour’ (um dos melhores momento do doc é ver o público mais perto do palco dançando os hits do soul brother nº 2); Ike e Tina Turner, na época ainda casados e estourados nos EUA, e Santana, com seu rock-psicodélico que já havia levantado Woodstock, também brilharam. Ao longo de toda a madrugada passaram pelo palco montado na Black Star Square nomes como Roberta Flack, Les McCann e Eddie Harris (em parceria com o ganês Amoah Azangeo), The Staple Singers e encerrando o show, às 6h45 da manhã, o grupo The Voices of East Harlem. Entre os africanos, destaque para Kumasi Drummers, Damas Choir e Kwa Mensah.
Lançado poucos meses após o show, o documentário ‘Soul to Soul’ foi restaurado, em 2004, pela Fundação Grammy e tem qualidade similar a filmes mais famosos sobre festivais da época, como o ‘Woodstock’, de 1969, e o ‘Wattstax’, de 1973. O doc mostra bastidores e preparativos para os shows e trechos de todas as apresentações, menos a de Roberta Flack, que não chegou a um acordo no relançamento. Vale destacar a emoção de músicos como Ike Turner ao pisar em solo africano e também a empolgação do público com os clássicos de Wilson Pickett e Santana. Veja abaixo trechos dos shows e aqui trailer do DVD.
Dos EUA, Nomo, Antibalas e Budos Band; Akoya e London Afrobeat, da Inglaterra, Karl Hector, da Alemanha, Liberators, da Austrália, Souljazz Orchestra, do Canadá, e do Brasil, Abayomy e Bixiga 70. Para ficar em 11 e formar um timaço dos palcos, a bigband Fanga, de Montpellier, seria o representante da França nessa seleção mundial afrobeat só com bandas que despontaram nos últimos 15 anos. Dos três discos lançados pelos franceses do Fanga, vou destacar ‘Natural Juice’, de 2007. Primeiro, pela participação de ninguém menos que o baterista Tony Allen, ex-Africa 70 e, segundo o próprio Fela Kuti, um dos criadores do afrobeat. Tony aparece logo na primeira faixa, a excelente ‘Crache La Douleur’, que também abre a playlist do post. Outro convidado de luxo em ‘Natural Juice’ é Segun Damisa, ex-Seun Kuti, Antibalas e fundador do Afrobeat Crusaders, de Bordeaux (ele morreu logo após o lançamento, aos 42 anos, de câncer). Nas onze faixas do disco, tem letra em francês, inglês e dioula, muito jazz-funk, um pouco de hip-hop, groove inspirado e alguns trechos hipnóticos para respirar. Veja abaixo o grupo em ação em programa de TV na França e depois vídeo com faixa do último disco, ‘Sira Ba’, de 2009.
Bobby Hutcherson – San Francisco (1970)
Bobby Hutcherson – San Francisco (1970)
Duas faixas de ‘San Francisco’ são obrigatórias em qualquer lista de clássicos da música black e constantemente aparecem em coletâneas de jazz-funk. A super grooveada ‘Uhmm’ é a mais conhecida e destaque nos recomendadíssimos álbuns ‘Blue Break Beats’ e ‘Infectious Grooves’, ambos da Blue Note. ‘Going Down South’, outra pérola daquelas para não sair da playlist, entrou em ‘Blue Note Trip’ e ainda em uma edição especial do clássico do US3 ‘Hand on the torch’, disco histórico de jazz-rap dos anos 90 que relançou ‘Cantaloop’, de Herbie Hancock.
As duas músicas do mestre do vibrafone, Bobby Hutcherson, já bastariam para ‘San Francisco’ merecer lugar cativo na estante. De preferência em vinil, no mínimo em CD. Lançado em 1970, o álbum mostra o músico de LA, hoje com 70 anos, em sua fase pós-hardbop e pré-fuision em parceria com o excelente saxofonista Harold Land. Exatamente por ficar no meio do caminho entre os discos mais cabeça e cheios de experimentação dos anos 60, e as misturas com sintetizadores dos 70, ‘San Francisco’ entrou para história como um dos melhores trabalhos de Hutcherson. Além da parceria com Land, o álbum traz ainda outro músico com carreira sólida: o pianista Joe Sample em ótima forma (é ele, aliás, quem assina ‘Going Down South’). Veja abaixo Bubby Hutcherson em outros mais marcantes da carreira, ao lado de McCoy Tyner e com Herbie Hancock.
30.6.11
bid-arethafranklin-mightyimperials
BiD - Bambas Dois - Brasil Jamaica (2011) e Bambas e Biritas (2005)
Segundo disco do produtor Eduardo Bidlovski, o BiD, do clássico, seminal, histórico - e quantos adjetivos mais você quiser - ‘Afrociberdelia’, de Chico Science, ‘Bambas Dois - Brasil Jamaica’ só deve ficar pronto em agosto, mas pelas duas faixas já disponíveis para download dá para adiantar que o projeto vem com sua marca de sempre misturando vanguarda e experimentação. A ideia do álbum é simples, daquelas que a gente fica imaginando ‘por que não pensaram nisso antes’. Mas é aí que entra o talento de BiD para fechar o projeto, convidar os músicos certos, costurar referências e construir uma ponte inédita entre o nosso Nordeste e a capital jamaicana Kingston, entre forró, baião, maracatu, com reggae, rocksteady, dancehall e ragga.
O vídeo com os bastidores das gravações mostra trecho do dueto emocionante de Dominguinhos e Kymani Marley, e BiD contando que teve a sacação do projeto em um passeio de barco na Jamaica quando o pescador local rimou sobre bases de Chico César. Participam também do disco o trio do Nação Zumbi Lúcio Maia, Gilmar Bola 8 e Marco Matias, além de Bi Ribeiro, Thalma de Freitas, Karina Buhr, Mariana Aydar e Céu; e entre os treze artistas jamaicanos, nomes como SIzzla, Heptones, U-Roy, Tony Rebel e Oku Onuora.
‘Bambas Dois’ será lançado seis anos após o primeiro disco de BiD, ‘Bambas e biritas’. Para quem não conhece, pode correr atrás que tem duas músicas daquelas obrigatórias para festinha em casa ou para ficar para sempre no iPod: ‘Roda, rodete, rodeando’, lançada primeiro em 2001, pela Revista Trip, com Chico Science no vocal; e ‘Mandingueira’, com Elza Soares. ‘Bambas’ tem ao todo onze músicas nesse mesmo esquema BiD de produzir, cheio de convidados, gente do naipe de Black Alien, Rappin' Hood, Seu Jorge e Marku Ribas.
Para fechar, vale lembrar mais um pouco do currículo inacreditável desse produtor que é também arranjador, compositor, DJ e multi-instrumentista: o cara começou aos 17 anos na banda Tokio, foi guitarrista da Professor Antena, produziu para o Nação, Seu Jorge, D2, Rappin’ Hood, Mundo Livre, Marina Lima, Arnaldo Antunes, Tribalistas, Jorge Benjor, Planet Hemp, Fernanda Abreu, Daúde, Otto, Mariana Aydar, Chico César... e até 2005 esteve à frente do excelente ‘Funk como Le Gusta’, projeto black de altíssimo nível que resgatou nomes das antigas como Gerson King Combo e Trio Mocotó.
Ouça na playlist quatro de ’Bambas e Biritas’ e mais cinco do Funk como Le Gusta. Aqui você faz o download para duas faixas de ‘Bambas Dois’. E, abaixo, o making of do projeto na Jamaica.
Aretha Franklin - Lady Soul (1968)
Aretha Franklin foi eleita, em 2008, a maior cantora da chamada ‘era do rock’, em votação da revista Rolling Stone, com 179 músicos, produtores e jornalistas, ficando à frente de nomes como Ray Charles (segundo colocado), Elvis Presley (terceiro), Sam Cooke (quarto) e John Lennon (quinto). Com voz poderosa e groove inigualável, a Rainha do Soul foi uma verdadeira máquina de hits. Entre 1967 e 1968, conseguiu o feito de emplacar nada menos que 10 músicas no top 10 das mais tocadas nos EUA. O fenômeno começou com o disco ‘I never loved a man the way I love you’, que enfileirava petardos como ‘Respect’ e ‘Save me’, até esse que é talvez um dos maiores álbuns da história da música: ‘Lady Soul’.
Lançado em 1968, o disco de 10 músicas abre com ‘Chain of fools’(e seu refrão inigualável ‘chain chain, chain...’) , segue com a balada black ‘You make me feel like a natural woman', e tem versões antológicas para músicas de James Brown (‘Money won't change you’), Ray Charles (‘Come back baby’) e Curtis Mayfield (o hino black ‘People Get Ready’). ‘Lady Soul’ ficou mais de um ano no ranking dos mais tocados nos EUA e até hoje é considerado um dos melhores discos da longa carreira de Aretha Franklin.
Em 2011, a cantora de 68 anos lançou seu 38º álbum, ‘A woman falling out of love’, após sérios problemas de saúde, entre eles um câncer de pâncreas.
Para matar a saudade da Rainha do Soul no auge, Aretha arrepiando com ‘Chain of fools’. Dá um confere na dancinha das backing vocals. Posto de número um merecidíssimo.
Thunder Chicken - Mighty Imperials (2004)
O primeiro e único disco do Mighty Imperials é de 1999, mas só foi lançado em 2004 pela Daptone Records quando seus quatro integrantes já faziam parte de grupos hypados, como Dap Kings, Antibalas, Soul Fire e El Michels Affair. Todos os quatro integrantes da banda tinham na época da gravação menos de 18 anos, já o suficiente para carregar o som de um groove black anos 60 da melhor qualidade. A jam pelo visto serviu para o quarteto afiar os instrumentos antes de estourar na cena black internacional. Baixo no ponto, bateria crua e solos funkeados de guitarra e hammond.
Veja abaixo o baterista Homer Steinweiss em ação pelo Dap Kings tocando com Sharon Jones, na Amoeba, superloja de LA.
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