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3.4.13

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Orquestra Afro-Brasileira - Obaluayê! (1957) 

Que tal descobrir que você tem um parente próximo vivendo em um outro país? É mais ou menos essa a sensação ao ouvir pela primeira vez a Orquestra Afro-Brasileira e comprovar que estão lá as mesmas raízes, influências e groove do afrobeat de Fela Kuti. Impossível não ver semelhanças entre músicas do combo do mineiro de Abigail Cecilio de Moura (1905-1970) com os petardos do nigeriano e seu Africa 70 ou Egypt 80. Tire a prova na playlist com sete música da orquestra ou vá direto no vídeo abaixo e comprove como 'Liberdade' tem todo o DNA de 'Shenshema'. Raridade em sebos, o disco de 1957 pode chegar a custar perto de mil reais no Mercado Livre. Para fãs de grooves africanos e colecionadores, vale muito! Criada em 1942, o combo de candomblé-jazz foi um dos pioneiros na mistura das batidas afro com instrumentos como piano, sax e trombone em passeios que iam do frevo e jongo a temas de folclore e cânticos de umbanda. 

Pesquisador, Abigail incorporou ainda instrumentos de percussão até então pouco usados em orquestras como agogô, adejá, urucungo, atabaques e angona-puíta. Lista de músicos da orquestra é extensa e já dá o clima de mistura total entre África, Brasil e jazz: Genny Pires (urucungo), José Pedro (angona-puíta), Joércio Soares (agogô), Antônio Cruz (gonguê), Oswaldino Lucas (rum), Carlos Negreiros (rumpi), Cândido Santos (lê), Valmir Rosa (afoxê), Djalma da Paixão (adjá); Horácio Soares (sax alto, clarineta), Carmélio Alves (sax tenor, clarineta), João Amâncio (sax alto, clarineta), Álvaro Nascimento (sax tenor, clarineta), Ananias da Silva (trumpete), Gamaliel da Silva (trumpete), Jaime da Silva (trumpete), Alfredo Alves (trombone) e Milton Profeta (trombone). Discaço para ficar de olho sempre nas buscas por sebos. Playlist tem cinco faixas abrindo com 'Apresentação' + 'Rei Nagô chegou'.




Jimmy Smith – Just Friends (1972) + Jimmy Smith's House Party (1958)

Depois de investir em uma vitrola zerada voltei a frequentar sebos em busca de raridades e sempre me impressiono com a quantidade de discos clássicos ainda obscuros. ‘Just Friends’, de Jimmy Smith, foi uma das últimas aquisições e mostra como uma boa garimpada pode render. Gênio do teclado Hammond, Smith participou de vários projetos coletivos ao lado de grandes músicos do jazz e funk. Mas os seus ‘Just Friends’ desse vinil de 1972 me surpreenderam, uma super seleção com alguns dos meus jazzistas preferidos. Sente o drama: no trompete, Lee Morgan; no sax, Lou Donaldson e na bateria o grande band-leader Art Blakey; e ainda: Curtis Fuller no trombone, Tina Brooks no sax tenor; George Coleman no sax alto; e fechando um dos meus guitarristas preferidos: Kenny Burrell. Me convenceu na hora! São apenas quatro músicas com cerca de 20 mimutos de jazz de cada lado e solos inspiradíssimos entrando em uma sequência matadora. 

Descobri depois na pesquisa para o post que o vinil é na verdade um relançamento de uma sessão gravada em NY, em 1958, para o disco ‘Jimmy Smith´s House Party’, da Blue Note. Se achar um ou outro, leve na hora! Abaixo, Jimmy Smith ao vivo em 1967 com Charlie McFadden, outro dos seus 'just friends', na guitarra. Hard-bop e souljazz de primeira.




Areia e Grupo de Música Aberta - Para Perdedores (2011)

Recife não cansa de surpreender com discos inspiradíssimos que muitas vezes não conseguem furar o bloqueio mainstream. ‘Para Perdedores', de 2011, é o segundo álbum solo do baixista do Mundo Livre S/A, Areia, também músico em trilhas famosas de cinema como ‘Amarelo Manga’, ‘Narradores de Javé’, ‘Árido Movie’ e ‘Baixio das Bestas’, e parceiro de nomes consagrados em discos de Alceu Valença, DJ Dolores, Arto Lindsay e Naná Vasconcelos. Após hiato de dez anos sem lançar trabalho solo, Areia voltou ao lado do Grupo de Música Aberta formado pelo saxofonista Ivan do Espírito Santo (Orquestra Contemporânea de Olinda), o acordeonista Julio Cesar (Arabiando) e o baterista Cássio Cunha (Alceu Valença e Duna). O nome Música Aberta vem do conceito de improvisação cíclica feita em cima de temas como o dos repentistas e cantadores de poesia popular do Nordeste. São ao todo quatro músicas gravadas em apenas uma noite no estúdio Muzak, em Recife. Estão lá o Nordeste, todas as raízes onde foram beber o próprio Mundo Livre, mas também a complexidade e sofisticação do jazz. O nome ‘Para Perdedores’ é uma homenagem aos que 'andam na contramão da sociedade competitiva', diz Areia no encarte. Faça download do disco no site do projeto. Pode mergulhar no som que a viagem é profunda. 

28.9.12

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Fumaça Preta - A Bruxa, Loco (2012) 

Projeto baseado em Amsterdã, o Music With Soul defende com unhas, dentes, guitarras venenosas e groovys invocados a filosofia ‘do-it-yourself’. É só olhar no site da dupla Alex Figueira e André Nóvoa para entender: ‘Gostamos de simplicidade. Odiamos frescura. Amamos a música que soa quente, crua e autêntica. Gostamos quando um disco soa rude e sujo. Gostamos de pessoas loucas, radicais. Odiamos fórmulas, clichês. Gostamos de coisas feitas com verdadeira paixão’.

É, os caras, dizem na lata o que pensam, não estão para brincadeira. E não só atacam de produtores, divulgando sons como The Grits e Slackers, como também fazem uma rock-black pesado carregado com pitadas generosas de psicodelia. Se identificou? Gosta de ritmos étnicos e funky? Então, pode aumentar o som e dá play em ‘A Bruxa’, último lançamento do Music With Soul (distribuído no Brasil pelo Goma Gringa).

Gravado no Barracão Estúdio (isso mesmo, em português, 'minha singela homenagem ao Brasil', brinca Alex, venezuelano), o compacto é resultado de uma session de uma tarde do quarteto formado por Joel Stone (voz, gemidos e barulhos vários), da Tropicália in Furs, loja clássica de NY, Stuart Carter (guitarra e moog) e James Porch (baixo), da banda The Grits, além do próprio Alex (bateria e percussão). A proposta era adaptar o clássico ‘The Witch’, dos Sonics, mas carregando (como eles próprios descreveram) ‘na psicose, macumba e avançando com os limites do estilo’. O lado B do compacto (eles adoram vinil, mas são apaixonados pelas bolachinhas, ‘mais sujas’), ‘Loco’, é uma composição original composta, ensaiada e gravada no mesmo dia. Vê aí no que deu.



Outros compactos de peso do Music with Soul são a adaptação do Slackers para ‘Minha Menina’, do Jorge Benjor, mais conhecida com os Mutantes, e ‘The Sons of your Funk Mother’, do Grits. Abaixo, o Fumaça Preta em ação no Barracão Estúdio.




Akoya - Introducing Akoya Afrobeat Ensemble (2004) e President Dey Pass (2008)

Nova York é atualmente a cidade com cena afrobeat mais intensa e talvez com os dois melhores grupos black-funky do mundo, ambos com passagens antológicas pelo Brasil em 2012, Budos Band e Antibalas. Mas revirando as produções recentes da cidade fica difícil entender porque a Akoya Afrobeat Ensemble, bigband internacional formada por 14 músicos dos EUA, Benin, Nigéria, Botsuana, África do Sul e até Japão, não tem o mesmo reconhecimento no Brasil. Quase todos seus integrantes participam ativamente da cena afro em NY, alguns tocaram com o Egypt 80, banda de Fela Kuti, além de outros em projetos hypados, como o musical ‘Fela’, hit na Broadway com integrantes do Antibalas, e ainda com Arcade Fire e Zozo Afrobeat. 

Atualmente, a Akoya está em estúdio finalizando seu terceiro disco previsto para ser lançado ainda este ano. Ouça na playlist as melhores faixas dos dois primeiros álbuns, ‘Introducing Akoya Afrobeat Ensemble’, de 2004, e ‘President DeyPass', de 2008, fácil, entre os melhores de afrobeat já produzidos em todos os tempos fora da África. 

A capa de ‘President Dey Pass’ é criação do artista nigeriano Lemi Ghariokwu, famoso pelos seus trabalhos em álbuns de Fela Kuti, Bob Marley e E.T. Mensah. Atenção na faixa ‘Jeje L’aiye’, parceria com o grande Cedric Brooks, saxofonista jamaicano dos Skatalites. O segundo disco da banda tem ainda participações de Tony Allen e Seun Kuti. Abaixo, Akoya ao vivo com Cedric Brooks e Amayo, do Antibalas.



Reuben Wilson - ‘Blue Mode’ (1969) e ‘Blue Break Beats’ (1994)

Reuben Wilson faz parte do seletíssimo grupo de instrumentistas que deram ao jazz algumas de suas músicas mais grooveadas de todos os tempos. Atualmente com 77 anos, o tecladista americano de Oklahoma, ex-boxeador profissional, viveu sua fase de ouro entre 1968 e 1971 quando gravou cinco discos pela Blue Note. Comparado e também influenciado pelo mítico Richard ‘Groove’ Holmes, Reuben Wilson está entre os músicos que inspiraram o movimento acid-jazz dos anos 90. Entre eles, alguns dos preferidos aqui do blog: Grant Green, Lou Donaldson, Bobby Hutcherson, Donald Byrd, Big John Patton, Freddie Hubbard e Gene Harris (coletânea essencial da Blue Note tem todas as pérolas dessa verdadeira seleção black).

Lançado em 1969, ‘Blue Mode’ é um clássico obrigatório para quem gosta de soul-jazz, principalmente para os fãs dos teclados funkeados e psicodélicos. Ao lado de Ruben Wilson, três craques: o sax tenor John Manning, o baterista Tommy Derrick e guitarrista Melvin Sparks (presta atenção nesse nome, tem vários discaços). Outra boa pedida é ‘Blue Break Beats’, coletânea de 1994, com as melhores faixas dos seus cincos discos pela Blue Note.

Além da carreira solo, Reuben Wilson atuou também com sideman nas bandas de Stanley Turrentine, Grant Green e do próprio Melvin Sparks. 



14.6.12

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Ambrose Akinmusire, Shamarr Allen, Trombone Shorty... a lista de grandes nomes da nova geração do jazz que passaram pelo Brasil em 2012 só aumenta. O ano de gala na música instrumental teve também shows antológicos de figurões da velha guarda. Na Virada Cultural de SP, McCoy Tyner e Lou Donaldson se apresentaram na mesma noite, de graça. Em junho, SP e RJ enfileiraram uma sequência histórica de três festivais internacionais de altíssimo nível: Bourbon Festival Paraty, Rio das Ostras Jazz and Blues e o BMW Jazz Festival.

oblogblack saiu à caça de vídeos com grandes momentos dos melhores shows. Se a qualidade das gravações nem sempre é das melhores, vale pelo registro para quem não pode ir e ficou só na fissura lendo as críticas nos jornais. Veja lista completa de todos os festivais de jazz pelo país até final do ano no RJ, SP, MG e RS. Abaixo, solos incendiários em vários palcos. Dá o play, aumenta a tela e sente o som. Para abrir, destaques do BMW Jazz Festival.


Trombone Shorty, no show do Rio


'All Blues', com Chick Corea


Trompetista Shamarr Allen, em Paraty


Jazz rolando no meio da rua, também em Parati


Souljazz clássico estilo Blue Note com Lou Donaldson, na Virada Cultural de SP...


... e gênio do piano McCoy Tyner, na mesma noite 


27.4.12

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Dos quase cem palcos da inspiradíssima programação da Virada Cultural de SP (dias 6 e 7 de maio), dois deles, praça da República e Júlio Prestes, terão o fino da música black e por baixo dez apresentações imperdíveis com figurões internacionais do afrobeat, highlife, reggae, jazz e soul para virar a noite e voltar correndo no dia seguinte. Blog abre hoje miniguia com seis discos clássicos para ir entrando no clima. Abaixo, os primeiros três álbuns: começa com soul-jazz e fecha com reggae roots; na outra semana, mais três para regressiva antes das apresentações. E nas playlists entram também mais faixas clássicas dos discos que ficaram fora do top 6.

Praça da República
McCoy Tyner Quartet, 19h (dia 5)
Lou Donaldson, 21h30 (dia 5)

Praça Júlio Prestes
Toots and the Maytals, 13h (dia 6): CANCELADO 


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Lou Donaldson – Blues Walk (1963)

A Blue Note resgatou em seus catálogos dos anos 60 e 70 a nata do funky-soul-jazz em uma coletânea primorosa de três álbuns batizada de Blue Break Beats lançada entre 1993 e 1999São ao todo 52 pérolas de nomes como John Patton (1935-2002), Grant Green (1931-79), Donald Byrd, Reuben Wilson, todos inspiração para o movimento acid jazz dos anos 90 com Jazzmatazz, Digable Planets e US3. Desse grupo de cracaços do groove, o saxofonista Lou Donaldson é um dos poucos que segue na ativa, com incríveis 86 anos. Autor de clássicos como ‘Turtle Walk’ e ‘Everything I do Gonna be Funky’, o americano é certeza de showzaço na Virada Cultural tocando logo após o pianista ex-John Coltrane, McCoy Tyner, às 21h30, na Praça da República. 

Donaldson começou carreira tocando clarinete e ganhou status de band leader da Blue Note logo que chegou a NY já como saxofonista. Participou do primeiríssimo show de Art Blakey, com Clifford Brown e Horace Silver, que seria precursor do Jazz Messengers. Tocou ainda com pesos pesados como Thelonious Monk, Milt Jackson e Jimmy Smith. ‘Blues Walk’, de 1963, é seu disco mais clássico e marca a passagem de Donaldson da sua fase bebop, inspirada em Charlie Parker, para um som mais lento, blues e smoothy que antecipava o soul-jazz anos 70. ‘Não importa o que estou tocando, sempre procuro o groove. E de uma maneira ou de outra, sempre acho’. 

Mais discos clássicos: Lou Takes Off (1957), LD+3 (1959), Good Gracious (1963), Blue Break Beats (93-99), The Lost Grooves (1995).

Abaixo, Lou Donaldson em ação em Nova York com Jimmy Smith e Kenny Burrell. Demais, showzaço, imperdível. 




McCoy Tyner – The Real McCoy (1967)

Acompanhar John Coltrane definitivamente era desafio para poucos. Nascido na Filadélfia, em 1938, McCoy Tyner foi entre 1960 e 1965 o pianista oficial de Coltrane em discos emblemáticos que marcariam a história do jazz como 'A Love Supreme'. Contemporâneo e quase vizinho da lenda Bud Powell e considerado um dos músicos mais influentes dos últimos 50 anos, Tyner não só foi um pianista inspirador para Coltrane como construiu sólida carreira solo sempre reinventando seu estilo de toques pesados e fluidos ao mesmo tempo. Completando em 2012 nada menos que 60 anos do seu disco de estreia, ‘Inception’, Tyner tocou com nomes como Ike e Tina Turner, dividiu palco com Sonny Rollins e Stephane Grappell, e gravou dezenas de álbuns como band leader, quase um a cada dois anos sempre frequentando o ranking dos mais tocados do jazz. 

'The Real McCoy', de 1967, serve como porta de entrada para conhecer um músico com domínio completo do piano e muito bem acompanhado por John Henderson no sax, Ron Carter no baixo e o baterista Elvin Jones (ex-companheiro dos tempos de Coltrane). McCoy continua hoje em plena forma tocando constantemente em festivais de jazz pelo mundo e produzindo muito. Nos últimos cinco anos, foram quatro discos. Na playlist, faixas também de ‘A Love Supreme’ e de outro clássico, ‘Expansions’, disco de Tyner de 1968 com Wayne Shorter no sax. 

Veja abaixo McCoy Tyner esbanjando categoria tocando Thelonious Monk e depois no quarteto de John Coltrane. 





Toots and the Maytals – Pressure Drop: The Definitive Collection (2005)

Toots and the Maytals têm tanta história na Jamaica que basta dizer que foram os primeiros a usar a palavra reggae em um título de música. Figuras centrais no ska, foram também pioneiros ao emplacar hits nos EUA e Europa antes do fenômemo Bob Marley. Do trio que começou em 1963 só o vocalista Frederick 'Toots' Hibbert continua na ativa fazendo shows. O grupo original se desfez no começo dos anos 80. A coletânea 'Pressure Drop' traz a banda no auge, focando no período de 1967 a 1972, passando por todas suas melhores faixas, de ‘Do the Raggay’ e '54-46 That's My Number' (referência ao número de Toots na prisão, nos anos 60, após flagra com drogas) a tesouros da história do reggae como 'Monkey Man', 'Funky Kingston', 'Pomp and Pride', 'Time Tough' e a própria ‘Pressure Drop’, trilha do filme 'The Harder they Come'. 

Com vozeirão soul e presença de palco marcante, Toots segue tocando os clássicos do grupo em carreira solo com os New Maytals e também lançando discos bem sucedidos. Em 2005, 'True Love', gravado em parceria com Eric Clapton, The Roots e Ben Harper, ganhou Grammy de melhor álbum de reggae; em 2008, Toots teve outra indicação com 'Light Your Light'. Ouça na playlist as melhores de 'Pressure Drop' e também as novas versões de 'True Love'. Abaixo, '54-46' em show lotado na França em 2009.


30.3.12

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Maceo Parker - Roots Revisited (1990)

Programão imperdível para os fãs do soul-funk de James Brown que curtem um bailão instrumental de altíssimo nível no palco. Depois de trazer o fenômeno Sharon Jones junto com os Dap-Kings e o excepcional Wayne Shorter, em 2012, o BMW Jazz Festival confirmou a vinda do saxofonista dos JBs, Maceo Parker, para apresentação, (somente) em SP, em junho, ao lado dos parceiríssimos Fred Wesley e Pee Wee Ellis. Idolatrado por seus solos em petardos black de James Brown, como ‘Papa's Got a Brand New Bag’ e ‘Cold Sweat’, Maceo Parker teve passagens arrasadoras também pelas bandas dos mitos George Clinton e Bootsy Collins antes de iniciar uma sólida carreira à frente da sua própria banda. Seus primeiros discos solo são do começo dos anos 70, ainda sob forte influência do som dos JBs. Mais à frente, Parker experimentou com o jazz, o hip-hop e até cantou relembrando o início da carreira ao lado de Ray Charles.

‘Roots Revisited’ é de 1990 e marca o reencontro do saxofonista com os mesmos Fred Wesley e Pee Wee Ellis que virão a São Paulo. Outros destaques da sua discografia são ‘Southern Exposure’, de 1993, de novo com Wesley e Ellis, ‘Funk Overload’, de 1998, com versões para clássicos de Sly Stone e Marvin Gaye, e seu último disco, o duplo ‘Roots and grooves’, de 2007, dividido em dois, o primeiro um tributo a Ray Charles, o segundo batizado de ‘Back to funk’, em que ele volta aos tempos de JBs e ao soul-funk-groove anos 70. Sonzeira instrumental da melhor qualidade com altas doses de jazz. 
 





Dirty Beaches – Badlands (2011)

Meio trilha de cinema, totalmente hipnótico. De cara, o som do Dirty Beaches causa uma estranheza, mas provoca, tem um pé no passado e soa moderno, lo-fi, caseiro, de garagem.  Primeiro disco oficial do taiwanês criado no Canadá, Alex Zhang Hungtai, à frente do projeto Dirty Beaches, ‘Badlands’ está recheado de músicas bizarras que cairiam como uma luva em filmes de David Lynch ou Gus Van Sant. Tem um pouco de Jesus and Mary Chain, Velvet Underground e até Elvis. Comparado a nomes da cena de NY dos anos 70, como Suicide, e também a guitarristas rockabilly como Eddie Cochran e Roy Orbison, o Dirty Beaches começou lançando suas faixas somente em cassete até fechar a estreia com ‘Badlands’ na gravadora Zoo Music, de San Diego. 

Em 2012, seu nome correu também o mundo do surfe ao ter uma faixa sua incluída no blog do americano Dane Reynolds, candidato a campeão mundial, como trilha para uma free-session no México. A sujeira-roqueira-psicodélica-surreal de ‘Badlands’ vale pela proposta lo-fi, inusitada e bem longe do mainstream. Não é para um dia de sol, nem para relaxar. Mas provoca. 



 
The Best of the Gerry Mulligan Quartet with Chet Baker 1952-57 (2012)

Com pouco mais de 20 anos de idade, Gerry Mulligan e Chet Baker já chamavam atenção no jazz dos anos 50 não só pelo imenso talento no palco como solistas, mas também fora dele como compositores. Além disso, eram ainda um dos poucos músicos brancos em um ritmo totalmente dominado pelo talento e groove dos negros (Mulligan era descendente de irlandeses, e Baker, o James Dean do jazz).

Antes de sua fase cool, Chet Baker tocou com Charlie Parker no mesmo posto que já havia sido ocupado por nomes como Dizzie Gillespie e Miles Davis - e era abertamente elogiado por Bird. Já Mulligan foi um dos músicos chave na gravação do clássico ‘Birth of the Cool’, de Miles, de 1950. São de sua autoria, por exemplo, três clássicos do disco, ‘Jeru’, ‘Rocker’ e ‘Venus de Milo’.

A caixa com cinco CDs ‘The Best of the Gerry Mulligan Quartet with Chet Baker’ resgata as primeiras sessões da dupla em formato ‘quarteto sem piano’, de 1952, e o reencontro em 1957, após a prisão de Mulligan por posse de drogas. O disco tem ainda gravações com a dupla atuando em quintetos e até em tentetos, ao lado de cracaços como Lee Konitz, Chico Hamilton e Bud Shank. Outro achado são as faixas gravadas no Festival de Newport. Em 1955, por exemplo, Mulligan e Baker dividiram o palco com Clifford Brown, Dave Brubeck e Paul Desmond. Cool jazz de altíssimo nível em uma daquelas caixas para se guardar na estante, bem à vista, e sacar no final de tarde ou na madrugada.

22.2.12

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Céu - Caravana Sereia Bloom (2012)

Céu passou tranquila no teste do 2º disco com 'Vagarosa', em 2009, e agora vai ainda mais longe com o recém-lançado ‘Caravana Sereia Bloom’, fácil um dos melhores e mais completos discos do ano até agora. Indicada ao Grammy Latino na sua estreia com o álbum homônimo de 2006, com carreira sólida no exterior tendo tocado no Coachella e prestes a iniciar turnê pela Europa, a paulistana de 31 anos chega ao seu terceiro disco ainda mais apurada, caminhando firme entre o cult e o pop (caindo muito mais para a vanguarda); equilibrando dub, psicodelia e mpb na medida certa; jogando com barulhinhos e efeitos; brincando com a voz e cercada de um timaço de músicos.

Produzido pela própria Céu junto com o marido, Gui Amabis, ‘Caravana’ tem participações de alguns dos nossos melhores instrumentistas: Curumim e Pupilo (Nação Zumbi) dividem os créditos na bateria; na guitarra, Lúcio Maia (outro do Nação); no sax, Thiago França (Criolo, Sambanzo); e a dupla Anelis Assumpção e Thalma de Freitas fazendo vocais. Batizado em homenagem à Caravana Rolidei, do filme ‘Bye bye Brasil’, o disco tem músicas de Lucas Santtana e Jorge Du Peixe, além de versões para ‘Palhaço’, de Nelson Cavaquinho, e um reggae-rocksteday inspiradíssimo de Lloyd Robinson, ‘You won’t regret it’.

O primeiro show de Céu cantando o novo disco será dia 10 de março, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo; depois, a cantora segue para a Europa e volta em maio para tocar no Rio. Um discaço que coloca a paulistana definitivamente no grupo de cantoras de quem o blog corre rápido para escutar um novo CD.  E Céu de novo não decepcionou. 




John Coltrane - Plays the Blues (1960)

'The Blues', 'Sings the Blues', 'The Blues Years'... pode procurar, John Lee Hooker, BB King, Lightnin' Hopkins, Bessie Smith, todos têm pelo menos um disco com o nome blues, e todos clássicos, não tem erro. Mas grandes músicos do jazz também recorreram ao nome nos seus momentos mais ‘bluesy’ com resultado quase sempre matador. As melhores músicas da pianista Nina Simone, por exemplo, estão no clássico ‘The Blues’ (‘The Pusher’, ‘Do I move You?’); o guitarrista cigano Django Reinhard também tem o seu, e coletâneas de nomes como Eric Clapton e Ray Charles são sinônimo de ótima música. Por isso, pela primeira vez que ouvi esse ‘Plays the Blues’, de John Coltrane, sabia que a escolha seria certeira. O disco de sete faixas foi feito inteiro com material de sessões gravadas no final de 1960, ano em que Coltrane deixou a banda de Miles Davis para formar seu quarteto com um timaço formado pelo pianista McCoy Tyner, o baterista Elvin Jones e o baixista Steve Davis. Com esse quarteto, Coltrane gravou em pouco mais de três anos discos que ficariam marcados para sempre em sua carreira, entre eles ’My Favorite Things’ (61) e ‘Ballads’ (1962). Coincidência ou não, destaque nesse álbum são as faixas que também tem blues no nome: ‘Blues do Elvin’, ‘Blues to Bechet’ e ‘Blues to You’, todas na playlist. E já que o assunto é blues – e Coltrane - vale lembrar que um de seus discos preferidos era ‘Blue Train’, de 1957, com o trompetista Lee Morgan, o pianista Paul Chambers e o baterista ‘Philly’ Joe Jones. Abaixo, quarteto de Coltrane em ação com 'My Favorite Things'.




Cidadão Instigado - E O Método Túfo de Experiências (2005)

Fundir rock progressivo, brega, psicodelia e ritmos nordestinos é a especialidade do grupo cearense Cidadão Instigado. Letrista, guitarrista e mentor criativo da banda, Fernando Catatau começou a mostrar nesse ‘E o Método Túfo de Experiências’, de 2005, que faria com a música mais ou menos o que Tim Burton fez no cinema: criou um mundo seu, inovador, atemporal, às vezes surreal. Acabou virando nome constante em festivais e acumulou parcerias de peso em discos de Karina Buhr, Los Hermanos, Vanessa da Matta, Arnaldo Antunes, Otto e Siba.

Segundo álbum do Cidadão Instigado (que tem ainda na discografia o elogiado Uhuu!, de 2009), ‘Método’ aproxima rock e brega sem querer soar irônico. Junta Odair José, Pink Floyd e Black Sabbath (todas referências assumidas de Catatau; veja entrevista) usando mudanças radicais de andamento em uma mesma faixa, passando do samba de terreiro para solos de trompetes e sintetizadores, ou radicalizando com guitarras distorcidas. Gravado com contribuições especialíssimas nos estúdios de Maurício Takara e Daniel Ganjaman, do Instituto, o disco entrou em várias listas dos melhores de 2005.

Para ouvir com calma, sem preconceitos, atento aos detalhes, referências e experimentações. Um disco autoral, esquisito mesmo, até excêntrico, instigante na essência. Veja clipe para 'Tempo' e depois 'Pobre dos Dentes de Ouro' ao vivo no Trama Virtual.


19.1.12

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Incrível ver o Centro do Rio com ruas e calçadas lotadas nas apresentações do Nova Lapa Jazz em 2011. Ter Art Blakey, John Coltrane e Lee Morgan como trilha sonora de baladas era algo impensável. Fenômeno parecido explica shows concorridíssimos de bandas como as excelentes Bixiga 70 e Abayomy Afrobeat que apostam em longas sessões instrumentais. O groove com levada black e influências de jazz, soul e afrobeat nunca esteve tão em alta.

'A galera está a fim de dançar. Dá para ver nas festas, as pessoas nem ficam olhando para o palco. É baile mesmo', disse Décio 7, baterista do Bixiga 70, em blog do Estadão.

Para apimentar seus solos, os músicos cada vez mais vão buscar inspiração nos sons vintage, em coletâneas africanas e nos discos de jazz dos anos 60 e 70. E é no afro-soul-jazz que a terceira mixtape do blog foi beber na fonte, só sonzeira das antigas. A maioria das faixas têm assinatura da mais black de todas as gravadoras, a Blue Note Records. Coltrane e Miles Davis, os dois maiores gênios do jazz, abrem a seleção. Depois tem o piano de Nina Simone e Herbie Hancock, os trompetes de Freddie Hubbard e Lee Morgan, o vibrafone viajante de Bobby Hutcherson, e para fechar os guitarristas Grant Green, Kenny Burrell e Wes Montgomery. Ouça, curta e compartilhe.

01 > Miles Davis + John Coltrane - Freddie Freeloader
02 > Nina Simone - African Mailman
03 > Blue Mitchell - Blue Soul
04 > Bobby Hutcherson - Going Down South
05 > Herbie Hancock - Oliloqui Valley
06 > Lee Morgan - Somethin' Cute
07 > Kenny Burrell - Midnight Blue
08 > Grant Green - No. 1 Green Street
09 > Freddie Hubbard - A Soul Experiment
10 > Wes Montgomery - Sun Down

5.1.12

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Siba – Avante (2012)

Bastaram dois dias de 2012 para vazar na internet um disco que já vai direto para lista dos favoritos a destaque do ano na música brasileira. Com formação enxuta e original juntado bateria, tuba, vibrafone e teclado, ‘Avante’ marca a volta do pernambucano Siba à guitarra após dois discos brilhantes tocando rabeca à frente do Mestre Ambrósio e Fuloroesta. Um dos primeiros a abrir caminho para o retorno de Siba ao seu instrumento de origem acabou virando produtor do disco, Fernando Catatau, do Cidadão Instigado. Foi ouvindo os solos de Catatau no disco ‘Método Túfo de Experiências’, e também de africanos, como o congolês Franco, que o ex amante de heavy e hard rock decidiu que era hora de se ‘reconectar’ .

‘O disco tem bastante influência de música africana e também urbana dos anos 70 até hoje’, avisa Siba.

Gravado em SP entre final de 2010 e começo de 2011 e já testado ao vivo em apresentações na capital paulista, ‘Avante’ tem doze músicas sendo quatro regravações de faixas dos tempos da Fuloresta, como ‘A Bagaceira’, em versão mais africana com vibrafone, e ‘Canoa Furada’, essa finalista do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, no Rio.

Para quem não lembra, a primeira banda de Siba, o Mestre Ambrósio, deixou muita saudade ao unir com maestria presente e passado da música pernambucana juntando poesia rimada, frevo e cocos com instrumentos de sopro, dub e guitarras; um forró elétrico-turbinado-ciberdélico da melhor qualidade em que se encontravam numa encruzilhada do sertão os sons de Luiz Gonzaga e Chico Science. 

A playlist traz dois clássicos de Siba dos tempos do Mestre Ambrósio, ‘Forró de Primeira’ e ‘Feira de Caruaru’, mais duas da trilha do filme ‘Baile Perfumado’ (em que Siba toca numa super banda pernambucana formada por Chico Science, Fred 04 e Lucio Maia) e abrindo duas com a Fuloresta (incluindo ‘Meu time’, com os versos impagáveis ‘Meu time foi rebaixado para terceira divisão’) e cinco faixas de ‘Avante’. Abaixo, trechos dos ensaios no teaser de 'Ariana'. 


Medeski, Martin and Wood + John Scofield – MSMW, In Case the World Changes its Mind + 20 (2011)

Shows memoráveis no Whitney Museum, em NY, na Cité de la Musique, em Paris, um documentário, ‘Fly in a bottle’, mostrando os bastidores da banda, e mais dois discos antológicos para fechar com chave de ouro as comemorações pelos 20 anos do trio. Definitivamente, os últimos doze meses foram intensos para a banda de jazz-rock de vanguarda de NY Medeski, Martin and Wood. O duplo ‘In Case the World Changes Its Mind’ (Indirecto Records) foi lançado em novembro com os melhores momentos dos super shows ao lado do guitarrista John Scofield. São ao todo doze músicas de um disco matador para se ouvir inteiro no volume máximo com a banda voando baixo nos palcos cada vez mais segura nas experimentações e improvisos. O álbum reedita sete das doze faixas do excelente ‘Out Louder’, de 2006, segundo encontro do trio com Scofield após uma primeira experiência em ‘A Go Go’, de 1996, ainda pela Verve Records.

Um mês após o lançamento do duplo com Scofield, o MMW finalizou o projeto ‘20’ que lançou ao longo de todo o ano, mês a mês no site da banda, 20 novas faixas com composições que vão do jazz ao soul passando pelo ragtime e até eletrônicos com a participação de DJs. As três últimas faixas, liberadas em dezembro (‘Illmoan’, ‘Mean Irene’ e ‘Floodwaters’) fecharam a série transbordando groove com improvisos hipnóticos.

Todas as músicas de ‘20’ estão disponíveis aqui para download. A playlist do blog traz cinco faixas do álbum com Scofield. Se quiser ver um trecho do documentário, lembre post do blog sobre ‘Radiolarians II’. E no excelente site Paris DJ tem entrevista imperdível com o baterista Billy Martin falando sobre os 20 anos da banda. Abaixo, 'Little Walter Rides Again' com Scofield nos EUA.


Ambrose Akinmusire - When the Heart Emerges Glistening (2011)

Bíblia do jazz nos EUA com quase 80 anos de história, a revista Downbeat divide seus prêmios de melhores do ano entre artistas consagrados e revelações. Pois ‘When the Heart Emerges Glistening’ junta simplesmente os dois melhores de 2011, nas duas categorias: o jovem trompetista Ambrose Akinmusire, que assina o álbum e é também compositor de dez das doze faixas, mais o pianista Jason Moran, atacando aqui como produtor. Akinmusire está apenas em seu segundo disco solo, o primeiro pela Blue Note, mas tem potencial tão grande que vem sendo comparado nos EUA a lendas como Miles Davis, Dizzy Gillespie e Chet Baker. Não pelo que já tenha feito, mas pelo que pode vir a produzir, afinal, a revelação da Califórnia, formado em Berkeley, tem apenas 29 anos. Potencial, dizem os críticos, Akinmusire tem de sobra. Tire a prova na playlist com cinco faixas de 'When the Heart Emerges Glistening'. 
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