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13.6.12
analogafrica-soundway-vampisoul-strut
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Gravadoras independentes da Europa e Estados Unidos apontam seus radares para Mali, Gana, Nigéria e Benin atrás de álbuns inéditos fora da África, muitos esgotados, fora de catálogo, relíquias que só aparecem com pesquisa pesada. É cada vez mais comum ver produtores e donos de selos viajando meses pela costa oeste africana e voltando carregados de vinis dos anos 60 e 70. As inglesas Soundway, Strut Records e World Circuit, a alemã Analog Africa, a espanhola Vampisoul e a francesa Buda Musique, que abriu portas nos anos 90 com a série Ethiopiques, são nomes chaves dessa nova cena internacional que tem produzido uma ‘world music’ bem mais funkeada do que a aquela empacotada pelas multinacionais nos anos 80 e 90.
Do garimpo por lojas de discos, rádios e até casas de colecionadores em cidades como Accra, Lagos e Cotonou já saíram discaços de Ebo Taylor, Orchestre Poly-Rythmo, Orlando Julius, Mulatu Astatke, Refugee All-Stars e muitas coletâneas com sons raríssimos em sequências matadoras ilustradas por pesquisa caprichada com fotos e entrevistas. Seguem quatro dicas que servem como mapa musical para essa região da África que é uma mina de sons clássicos.
African Scream Contest (2008) - Analog Africa
A viagem de Samy Redjeb por Benin e Togo, em 2005, rendeu tanto que o produtor da alemã Analog Africa só deu o projeto por encerrado depois de quase três anos na ponte aérea Frankfurt-Accra. Tinha tanto material que não ficou satisfeito somente em produzir um discaço com 14 músicas de nomes como Orchestre Poly-Rythmo, Les Volcans de la Capital e El Rego et ses commandos. A Analog lançou acompanhando o álbum um livro caprichadíssimo de 44 páginas recheado de fotos raras cedidas pelos próprios músicos e 16 entrevistas. No total, Samy fez oito viagens à capital do Benin, Cotonou, terra natal da sempre espetacular Poly-Rythmo. Grooves hipnóticos e metais pesados para conquistar até os ouvintes de primeira viagem.
Ghana Soundz Vol 1 (2002) Vol 2 (2004) - SoundWay
O DJ e fundador da SoundWay Miles Cleret voltou de Gana carregado de raridades locais de funk e afrobeat. Depois do garimpo, foi atrás dos músicos para resgatar fotos, dados das gravações e histórias. ‘Ghana Soundz’ é completíssimo e mereceu segundo volume dois anos depois. A maioria dos sons é do início dos anos 70 quando os ídolos locais eram Fela Kuti, James Brown e Santana. O resultado é uma mistura do funk dos EUA com o highlife local. Ebo Taylor e Marijata já tiveram posts aqui no blog.
VampiSoul Goes to Africa (2008) - VampiSoul
Depois de apostar nas pedradas black ‘Lagos Baby’, de Fela Kuti, ‘Afro Disco Beat’, de Tony Allen, e na coletânea ‘Highlife Time’, todos discos duplos com produção impecável, a espanhola VampiSoul partiu para pesquisa de campo e antecipa futuros lançamentos com esse ‘VampiSoul Goes to Africa’. Muita percussão, solinhos funkeados de guitarra, metais em brasa e influência direta do deep funk dos EUA.
Lagos Jump (2009) – Strut Records
‘Lagos Jump’ marca a volta da inglesa Strut ao país de Fela Kuti depois do relançamento do triplo ‘Nigeria 70’. Só que o foco agora é a capital Lagos dos anos 70 totalmente impregnada, dominada, encharcada de afrobeat. Tem do jazz pesado de Peter King ao afrofunk de Bola Johnson, chegando à lenda do ‘juju’ Shina Peters. São ao todo 27 músicas em um álbum duplo com seleção de Duncan Brooker e John Collins. Não poderiam faltar os incríveis Orlando Julius, Funkees, Joni Haastrup e Tony Allen. Pesquisa competente, afrobeat pauleira.
7.5.12
vídeos-viradasp-circo
Fim de semana foi histórico no RJ e SP com sequência rara de
shows imperdíveis e cardápio vasto para quem gosta de grooves africanos, jazz,
soul e rock brasileiro. Fora os sérios problemas
de som durante a Virada Cultural de SP (Seun Kuti mal conseguiu tocar em
algumas músicas, Ebo Taylor começou com volume baixíssimo) e os cancelamentos
de Toots & Maytals e Abyssinians em cima da hora, tem que se destacar a programação de altíssimo nível que levou para as ruas de SP uma seleção de cracaços internacionais: de Tony Allen, Ebo Taylor e Seun Kuti, a Lou Donaldson, McCoy Tyner e
Charles Bradley. E, por coincidência, tanto cariocas quanto paulistas viram ainda a
comemoração pelos 30 anos do clássico 'Cabeça Dinossauro', dos Titãs. O bailão
terminou ontem com apresentação mágica e emocionante de Tony Allen na lona do Circo Voador, no RJ, com os DJs da Makula abrindo os trabalhos, Bê Negão assumindo os vocais com o mestre do afrobeat solando e uma jam final com palco lotado que tirou lágrimas de
muitos fãs de afrobeat.
oblogblack selecionou alguns desses momentos com vídeos do
youtube para dar um panorama geral da festa em SP e RJ. Quase todos bem tremidos, 'comentados', até toscos (a empolgação em ‘Polícia’, dos Titãs, entrou mais
pelo registro da zoeira que sempre acontece quando toca essa porrada anos
80). Quem tiver mais dicas (não encontrei nenhum com Lou Donaldson, por exemplo), dá o aviso que entra no blog. Começo com os
africanos: Tony Allen abre com clipe oficial do Queremos! (com bastidores, melhores momentos, completinho), depois tem Seun Kuti e Ebo Taylor. Veja ainda Charles Bradley levando soul de dia em SP e
para fechar Mutantes e Titãs em duas versões: na Virada e no Circo.
6.5.12
ebotaylor-oblogblack-soma
Conexão Gana
(oblogblack na revista +Soma)
Batizado John deRoy Taylor, Ebo Taylor, agora um senhor de 76 anos, dividiu palco nos anos 60 com o então iniciante Fela Kuti em bares de Londres, foi um dos primeiros a testar a mistura de jazz e funk com ritmos africanos e virou celebridade em Gana até ficar quase 30 anos sem lançar discos durante a moda do hiplife (versão africana do hiphop). Considerado uma das maiores ‘redescobertas’ da nova leva de discos de gravadoras como Strut Records, Soundway, Analog Africa, Vampisoul e Buda Musique com antigos ídolos africanos (Orchestre Poly-Rytmo, Mulatu Astatke, El Rego, entre outros), o guitarrista mestre do highlife fez seu primeiríssimo show no Brasil durante a Virada Cultural de SP. Antes, conversou com oblogblack por telefone direto da sua casa em Cape Coast. Leia matéria completa na revista +Soma.
Clique para ouvir playlist com faixas do novo álbum de Ebo Taylor, 'Appia Kwa Bridge'. Abaixo clipe de 'Ayesama' gravado em Gana.
4.5.12
viradacultural2-ebo-tonyallen-abyssinians
Com programação de altíssimo nível, homenagem à música
africana e shows imperdíveis de Ebo Taylor e Tony Allen, a Virada Cultural de SP
virou alvo de denúncias, ficou com site fora do ar e teve pelo menos uma baixa
de peso em cima da hora: os jamaicanos do Toots and the Maytals (um dos três indicados no
último post abrindo top 6 dos discos para ouvir no esquenta). Em meio a casos
de corrupção diários, o investimento pesado em um megaevento gratuito sempre liga
sinal de alerta. Abri apresentação da mixtape sobre a Virada falando
exatamente sobre surpresa com a super escalação, curadoria inspiradíssima, mas
a tal gratuidade preocupou. Quem paga mais de mil shows em uma única noite com
dezenas de atrações internacionais?
Polêmicas à parte, agora é acompanhar
as notícias e ficar ligado se mais algum show será cancelado (atualização: Abyssinians fora também). E ouvir música!
Praça Júlio Prestes
Ebo Taylor, 20h30 (dia 5)
Tony Allen, 24h (dia 5)
A segunda playlist do blog fechando top 6 da Virada já
estava pronta com Abyssinians e seu ‘Satta Masagana’. Decidi manter
até porque música boa independe de polêmicas, fica aí para curtir com ou sem
show na Virada. Super reggae-roots
de 1976 com faixas que já foram cantadas até em igrejas na Jamaica.
Top 6 fecha com as duas grandes atrações da Virada e
favoritos do blog: o guitarrista ganês Ebo Taylor e o baterista nigeriano Tony
Allen. Ouça 'Life Stories - Highlife and Afrobeat Classics 1973-1980', coletânea de 2010 da Strut Records com todos os clássicos de Ebo em suas versões
originais. E ‘Agent Orange’ com Tony Allen afiadíssimo cantando em duas faixas,
recebendo convidados e desfilando a categoria e groove de sempre na bateria. O
álbum da World Circuit é de 2009 e foi gravado na sua terra natal, Lagos,
capital da Nigéria. Abaixo, novo clipe de Ebo Taylor com imagens de Gana para o recém lançado 'Appia
Kwa Bridge’. 20.4.12
viradaculturalSP-mixtape#7
Confesso que minha primeira reação foi de surpresa total, aquela sensação de ‘é isso mesmo?, ‘tem certeza?’. E ainda
por cima de graça? A Virada Cultural de São Paulo este ano superou todas as
expectativas com uma aula de curadoria, programação inspiradíssima lembrando os
melhores anos dos antigos Free Jazz e Tim Festival com toques de BMW Jazz
Festival, Percpan e Back2Black. E como se tudo já não parecesse perfeito
demais, ainda homenageia a África com dois convidados ilustríssimos
tocando em sequência no horário nobre do seu palco mais roots: nada mais nada
menos do que Tony Allen e Ebo Taylor, na Praça Júlio Prestes, dia 5, a partir
das 20h30 (antes, Ray Lema abre a programação). Prepare o coração também porque é mais
do que provável ver os dois dividindo microfones já que Tony acaba de fazer
participação no novo disco de Ebo, o recém-lançado Appia Kwa Bridge. A super noitada black
na Praça Júlio Prestes terá na sequência mais dois showzaços: Seun Kuti, às
2h30, e Bixiga 70, às 5h. No dia seguinte, a festa segue com reggae jamaicano
clássico do Toots and the Maytals, às 13H (cancelado), e Abyssinians, às 15h30. GilbertoGil fecha o bailão histórico, às 18h.
Se na Júlio Prestes o assunto é África, na Praça da República o som continua blackíssimo, mas com jazz dominando e mais dois nomes clássicos no horário nobre: o mito McCoy Tyner, pianista do quarteto de John Coltrane em ‘A Love Supreme’, às 19h, o saxofonista Lou Donaldson, presença constante nas coletâneas groove da Blue Note, às 21h30, e o blaxploitation de Roy Ayers, à 0h. Para fechar, no dia seguinte tem o soul relax da revelação da Daptone Records, Charles Bradley, às 15h. E agora? Que palco escolher? Mixtape do blog esquenta para os shows e ajuda a tirar a dúvida. Ou aumentar...
Confira aqui a programação completa com mais de 900 atrações em quase 100 palcos espalhados por SP (o custo do evento foi estimado em R$ 8 milhões). Abaixo, lista das doze músicas da mixtape. E, depois, minidoc com Ebo Taylor + Tony Allen e Bixiga 70 no palco.
Se na Júlio Prestes o assunto é África, na Praça da República o som continua blackíssimo, mas com jazz dominando e mais dois nomes clássicos no horário nobre: o mito McCoy Tyner, pianista do quarteto de John Coltrane em ‘A Love Supreme’, às 19h, o saxofonista Lou Donaldson, presença constante nas coletâneas groove da Blue Note, às 21h30, e o blaxploitation de Roy Ayers, à 0h. Para fechar, no dia seguinte tem o soul relax da revelação da Daptone Records, Charles Bradley, às 15h. E agora? Que palco escolher? Mixtape do blog esquenta para os shows e ajuda a tirar a dúvida. Ou aumentar...
Confira aqui a programação completa com mais de 900 atrações em quase 100 palcos espalhados por SP (o custo do evento foi estimado em R$ 8 milhões). Abaixo, lista das doze músicas da mixtape. E, depois, minidoc com Ebo Taylor + Tony Allen e Bixiga 70 no palco.
02 > Tony Allen - No Discrimination
03 > Bixiga 70 - Tema di Malaika
04 > Seun Kuti - African Soldiers
05 > Lou
Donaldson – Its your thing
06 >
McCoy Tyner - Blues on the corner
07 >
Toots & the Maytals - 54-56 Was My Number
08 > Abyssinians
- Satta Massagana
09 > Charles
Bradley - The World (Is Going Up In Flames)
10 > Roy
Ayers - King George
11 > Toots
& The Maytals - Pressure Drop
12 >
Tony Allen – Secret Agent
16.3.12
amadou-mariam-ebotaylor-mertens
>> playlist
Amadou e Mariam – Folila (2012)
Megaprodução, palco enorme, transmissão ao vivo para os
seis continentes. A escolha para participar
em Soweto do show histórico de abertura da Copa do Mundo de 2010, a primeira na
África, deslanchou de vez a carreira internacional do casal do Mali Amadou e
Mariam. A responsabilidade era enorme, além deles, apenas Angelique Kidjo,
Parlotones e Tirariwen representavam a música africana em um line-up que tinha
estrelas como Shakira e Black Eyed Peas. De lá para cá, o casal de cegos do
Mali já abriu para super bandas como U2 e Coldplay, tocou com Damon Albarn no
projeto hypado Africa Express e fez o showzaço ‘Eclipse’, no escuro total, em
Manchester, em 2011. Agora, depois de quase dois anos na estrada e apenas um disco
lançado (‘Remixes’, com pesos pesados da música eletrônica, como Bob Sinclair e
Mike Snow, fazendo versões de seus hits), Amadou e Mariam estão em contagem
regressiva para colocar no mercado seu sétimo disco de estúdio, ‘Folila’, cercado
de expectativa e cheio de convidados especiais.
Com lançamento previsto para abril, o álbum terá onze
músicas e participações de nomes como Tunde e Kyp do TV on the Radio,
Jake Shears, do Scissor Sisters, Nick Zinner, guitarrista do Yeah Yeah Yeahs,
Santigold e do rapper Theophilus London. Com produção do mesmo Marc-Antoine Moreau,
francês parceiro da dupla desde o primeiro disco, ‘Sou ni tilé’, de 1998, ‘Folila’
teve músicas gravadas em NY e na capital do Mali, Bamako, com ambas sessões entrando
na mixagem final.
Uma das faixas do disco, ‘Dougou Badia’, com Santigold, já
pode ser ouvida no site da gravadora Nonesuch, e também em duas versões no EP
homônimo de quatro faixas lançado no início do ano (as duas outras músicas são
‘Oh Amadou’ e ‘Wily Katsao’, essa gravada no show de Manchester).
Ouça na playlist ‘Dougou Badia’ e Wily Katsao’, mais uma seleção das melhores dos seis álbuns
anteriores. Aqui, lembre ‘Dimanche a Bamako’, com Manu Chao.
A indicação ao Grammy, os elogios rasgados nas principais
revistas do mundo e todo o moral com roqueiros e DJs, nada é por acaso. Amadou
toca muito, Mariam tem uma voz incrível e as músicas um groove difícil de se
achar. Que eles incluam o Brasil na turnê.
Ebo Taylor - Appia Kwa Bridge (2012)
Parece que o discaço ‘Love and Death’, de 2010, o primeiro
em quase em três décadas do agora senhor, Ebo Taylor, 76 anos, não acalmou o
apetite desse que é o maior nome do high-life de Gana e um dos grandes
guitarristas africanos de todos os tempos. Com lançamento previsto para abril, o
segundo álbum com distribuição internacional de Ebo (ele se apresenta dia 5, em SP, na Virada Cultural), ‘Appia Kwa Bridge’, tem
uma escalação digna de Copa do Mundo só com figurões da música black de várias
gerações. Sente o drama: na bateria, Tony Allen (ex-Fela Kuti, um dos
inventores do afrobeat e outro confirmado na Virada de SP e no Circo, no RJ); na guitarra, Oghene
Kologbo, ex-Africa 70; na percussão, Pax Nicholas, autor do clássico ‘Na teefknow de road of teef’, de 1973, relançado recentemente pela Daptone; e nos
teclados, Kwame Yeboah, filho da lenda de Gana, A.K. Yeboah.
Completa o timaço a Afrobeat Academy, uma super banda
formada por músicos alemães de sangue blackíssimo de bandas como Poets of
Rhythm e Woima. Todos já acompanham Ebo desde ‘Love and Death’ e estiveram ao
seu lado no Womad de 2011 (a turnê, aliás, por detalhes não chegou ao Brasil).
Músico, compositor e produtor, Ebo Taylor tem longa estrada na música africana: começou nos anos 50 em Gana tocando high-life e depois foi morar e estudar em Londres, já na década de 60. Na Inglaterra, afiou seu estilo com fortes pitadas de jazz e chegou a tocar em jams locais com o então desconhecido Fela Kuti. Ebo costuma dizer que sempre dava um jeito de colocar uma faixa de afrobeat no lado B dos seus discos de high-life.
Na década de 80, com o hiplife (adaptação local do rap) tomando
conta de Gana, Ebo foi morar no Canadá e deu uma sumida. Isso até gravadoras
como Soundway, Strut e Analog Africa partirem rumo à África em busca de discos
esgotados e relançarem material de bandas como Poly-Rythmo e de ídolos locais esquecidos
como El Rego. Pela história que tinha dentro da música de Gana, Ebo Taylor foi um
dos primeiros a ganhar destaque, foi convidado para shows na Europa e acabou
gravando seu primeiro disco por uma gravadora europeia.
Com seis músicas
inéditas de onze no total, ‘Appia Kwa Bridge’ sairá em CD e vinil
duplo em edição daquelas caprichadíssima da Strut Records, a mesma de nomes
como Mulatu Astatke, Poly-Rythmo, Heliocentrics e Souljazz Orchestra.
Ouça aqui as músicas de ‘Love and Death’ e veja entrevista
em vídeo com Ebo Taylor. Aqui, papo do blog Radiola Urbana, em Gana, 2005.
E na playlist uma seleção de alguns hits do mestre do highlife.
‘Nós que aqui estamos por vós esperamos’ (1999) - Marcelo Masagão - Trilha: Wim Mertens
Curador e idealizador do Festival do Minuto, Marcelo Masagão
conseguiu colocar seu longa de estreia ‘Nós que aqui estamos por vós esperamos’
na lista dos filmes mais vistos de 2000 com apenas duas cópias circulando nos
cinemas. Premiado em Recife, Gramado e em mais doze festivais pelo mundo, ‘Nós
que aqui estamos’ é daqueles filmes que faz a gente sair do cinema sem palavras.
E foi sem diálogo, nem narração, que Masagão fez um dos melhores documentários
brasileiros da história.
Usando o mesmo modelo narrativo de Godfrey Reggio nos
clássicos ‘Koyaanisqatsi’ e ‘Powaqqatsi’, o documentário tem pelo menos
três grandes qualidades que explicam seu sucesso: primeiro, a escolha impecável
de imagens feita a partir de uma enorme pesquisa em filmotecas do mundo inteiro
(responsável aliás pela maior parte dos custos do filme com pagamento de
direitos autorais); depois, uma edição cuidadosa e inspirada baseada em adaptação
do livro de Eric Hobsbawn, ‘A Era de Extremos’. Mas é a trilha do belga Wim
Mertens que pega lá no fundo, emociona de uma maneira que a gente demora para
aterrissar após as luzes se acenderem no cinema.
Nome dos mais badalados da chamada música minimalista, que
tem entre seus maiores destaques Terry Riley, Steve Reich, Brian Eno e Philip
Glass (esse autor da também belíssima trilha de ‘As Horas’, incluída na
playlist), Mertens é autor de quase 50 álbuns desde os anos 80 sempre seguindo
uma linha mais melódica, mas mantendo o estilo e sofisticação do filme de
Masagão. Tecladista de formação, o belga adota também em suas orquestrações instrumentos
acústicos como violino, flauta e saxofone.
Em 2007, a EMI assinou contrato para relançar todo seu catálogo. Seu
último álbum de inéditas é de 2010, ‘Zee Versus Zed’.
Para entrar no clima, veja abaixo a melhor sequência de ‘Nós
que aqui estamos’: o balé de Garrincha e Fred Astaire, obra-prima do cineasta,
dos personagens e de Mertens. Depois, mais trechos do documentário. E na playlist,
‘Close Clover’, que aparece também em coletâneas de música eletrônica como ‘Café
Del Mar’, e ‘Struggle for Pleasure’, top 40 na Inglaterra, Bélgica e Holanda
nos anos 90.
26.7.11
ontheroad-mulatu-bluenote-retro
>> playlist
Blog entra de férias para uma viagem rápida e as dicas de discos voltam semana que vem. Deixo três vídeos e uma playlist em clima de balanço com alguns dos melhores sons que rolaram por aqui no primeiro semestre. Tem jazz, rock, reggae, muito afrobeat e funk. Para entrar no clima, curte aí o minidoc ‘on the road’ com Ebo Taylor em Gana + animação psicodélica feita a partir de capas clássicas da Blue Note + trecho do showzaço do Mulatu Astatke em SP. Só sonzeira. Aumenta o som. E relax... até a volta.
14.4.11
slystone-trojanreggae-ebotaylor
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Sly and the Family Stone – Fresh (1973)Quem saiu naquela noite de 2008 em LA para ver o Los Lobos (os mesmos do filme ‘La Bamba’) acabou presenciando um dos encontros mais surreais e históricos da música nos últimos anos. Era quase fim do show quando o DJ surpreendeu ao chamar ao palco George Clinton e o ícone black dos anos 70 Sly Stone. Aos 69 anos, Clinton tem lançado álbuns regularmente e segue fazendo shows, mas Sly... tinha sumido totalmente dos palcos e fazia raras aparições. Muitos ali devem ter inclusive estranhado ele ainda estar vivo. O autor de clássicos como ‘Everyday people’, ‘Sing a simple song’ e ‘Don't call me nigger, whitey’ subiu ao palco de preto só com chapéu branco que mostrava muito pouco do seu rosto. Demorou até engrenar algumas notas no teclado, cantou poucos versos do hino black ‘I want to take you higher’, desceu do palco e sumiu no meio da pista. E foi isso... a reaparição do líder da lendária Sly and the Family Stone foi tão histórica quanto rápida e angustiante.
Nos anos 80, um Sly muito mais em forma chegou a fazer participações em shows do Funkadelic do mesmo George Clinton. Mas as drogas acabaram o afastando completamente dos palcos. A Family Stone havia acabado no final dos anos 70 já bastante desfalcada e a carreira de Sly desandou totalmente nos anos 80 a partir do seu envolvimento cada vez maior com a cocaína e ele chegou a ser preso em 87. Recluso, pouco aparecia.
Em 2005, de novo voltou aos holofotes ao ganhar uma grande homenagem no Grammy com direito ao primeiro reencontro da Family Stone original desde 1971 e a uma superbanda com estrelas pop que haviam acabado de gravar o álbum tributo ‘Different strokes by different folks’, como The Roots (‘Star). Joss Stone (Family affair) e will.i.am (‘Dance to the music’). Sly mais uma vez surpreendeu ao aparecer com uma jaqueta dourada, óculos escuros enormes e um megacorte moicano loiro. Tocou e cantou pouco, mas ficou em cena por um tempo razoável. No fim, a noite que poderia marcar sua volta triunfal acabou sendo um show no mínimo estranho; os fãs não sabiam se comemoravam o retorno ou se lamentavam sua deterioração. As críticas variaram de ‘bizarro’ aos cruéis ‘podia ter se aposentado’. Elogios, muito poucos. Entre os fãs, clima foi mais de preocupação.
George Clinton, de novo ele, convidou Sly em 2009 para uma participação em seu álbum ‘Gangsters of love’. A música ‘Ain’t not peculiar’, clássico de Marvin Gaye dos anos 60, abriu o disco. Nada bombástico, mas outro recomeço. Clinton disse que Sly seguia compondo e preparava disco novo. De lá para cá, nada.
Para fazer o caminho inverso e rever Sly no auge, fazendo história nos anos 60 e início dos 70 com uma banda multicultural e racial que balançou o mercado americano, enfileirou hits e emplacou pelo menos quatro discos clássicos na história da black music, a dica do blog é o disco ‘Fresh’, sexto álbum e talvez a última obra-prima da banda. Gravado em 1973, tem músicas mais lentas que os petardos de ‘Dance to the music (1968), ‘Stand’ (1969) e ‘There's a riot goin' on’ (1971), mas groove no ponto e fica para sempre no iPod. Basta dizer que o hit é a incomparável ‘If you want me to stay’.
Ska, rocksteady e reggae são para Jamaica quase o mesmo que samba e bossa nova para o Brasil. O ska nasceu primeiro da mistura do jazz americano com o mento e calypso caribenhos nos anos 60 sob clima de euforia após independência do país. O rocksteady veio logo depois na desaceleração do ska fazendo a transição para o reggae. Brothers de sangue, os três ritmos colocaram a Jamaica no mapa da música mundial com lugar de honra entre os países com maior produção de grupos e músicos de talento de todos os tempos. A coletânea da gravadora britânica Trojan resgata hits produzidos na ilha no final dos anos 60 e início dos 70, quando o reggae virou mania mundial a partir do fenômeno Bob Marley. A seleção é de altíssimo nível: de Lee Scratch Perry a Toots and the Maytals, de Upsetters a Slickers, de Dennis Brown a Desmond Decker. Claro, não podia faltar o rei Robert Nesta Marley, aqui tocando ‘Soul shakedown party’. Fundada em 1968 como selo da gigante Island, a Trojan tem nos seus arquivos todos os grandes nomes da música jamaicana e volta e meia empacota clássicos em caixas ou coletâneas especiais. As opções são imensas e o repertório quase sempre certeiro. Vale prestar atenção aos longos solos de metal nas músicas de ska e rocksteady e nas linhas de baixo nos reggaes. Num tempo de CDs ‘ensolarados’, a coletânea da Trojan é aquele solzinho tranqüilo do final de tarde que faz a cabeça.
Ebo Taylor – Love and death (2011) Músico, compositor e produtor ganês reconhecido como uma das maiores estrelas da música africana dos anos 60 e 70, Ebo Taylor ganhou seu primeiro álbum com distribuição internacional somente em 2011 pela gravadora inglesa Strut, a mesma de nomes como Mulatu Astatke, Orquestra Poly-Rythmo, Heliocentrics e Souljazz Orchestra. A redescoberta de Ebo Taylor vem na esteira do sucesso do próprio Mulatu e da nova onda de afrobeat pós-web que invadiu EUA e Europa com Fela Kuti virando influência direta para novas bandas. ‘Love and death’ traz o ganês, agora um senhor de 75 anos, em plena forma e acompanhado da Afrobeat Orchestra, um combo internacional formado especialmente para o disco com integrantes do Poets of Rhythm, Kanu Kanu e conterrâneos do Marijata. No álbum, Ebo toca antigos clássicos em novas versões, como ‘Victory’, e também material inédito, como ‘Kwane’. Em alta na Europa, o músico terá chance de coroar sua volta com uma super apresentação em julho, em Londres, no tradicionalíssimo Barbican. Confira músicas de ‘Love and death’ na playlist e no vídeo o próprio Ebo Taylor lembrando sua história e tocando... muito.
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