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28.9.12
fumaçapreta-akoya-reubenwilson
>> playlistFumaça Preta - A Bruxa, Loco (2012)
Projeto baseado em Amsterdã, o Music With Soul defende com
unhas, dentes, guitarras venenosas e groovys invocados a filosofia ‘do-it-yourself’.
É só olhar no site da dupla Alex Figueira e André Nóvoa para entender:
‘Gostamos de simplicidade. Odiamos frescura. Amamos a música que soa quente,
crua e autêntica. Gostamos quando um disco soa rude e sujo. Gostamos de pessoas
loucas, radicais. Odiamos fórmulas, clichês. Gostamos de coisas feitas com
verdadeira paixão’.
É, os caras, dizem na lata o que pensam, não estão para
brincadeira. E não só atacam de produtores, divulgando sons como The Grits e
Slackers, como também fazem uma rock-black pesado carregado com pitadas
generosas de psicodelia. Se identificou? Gosta de ritmos étnicos e funky?
Então, pode aumentar o som e dá play em ‘A Bruxa’, último lançamento do Music
With Soul (distribuído no Brasil pelo Goma Gringa).
Gravado no Barracão Estúdio (isso mesmo, em português, 'minha singela homenagem ao Brasil', brinca Alex, venezuelano), o
compacto é resultado de uma session de uma tarde do quarteto formado por Joel
Stone (voz, gemidos e barulhos vários), da Tropicália in Furs, loja clássica de NY, Stuart Carter (guitarra e moog) e James Porch (baixo), da banda The Grits, além do próprio Alex (bateria e percussão). A proposta era adaptar o
clássico ‘The Witch’, dos Sonics, mas carregando (como eles próprios
descreveram) ‘na psicose, macumba e avançando com os limites do estilo’. O lado
B do compacto (eles adoram vinil, mas são apaixonados pelas bolachinhas, ‘mais
sujas’), ‘Loco’, é uma composição original composta, ensaiada e gravada no mesmo dia. Vê
aí no que deu.
Outros compactos de peso do Music with Soul são a adaptação do Slackers para ‘Minha Menina’, do Jorge Benjor, mais conhecida com os Mutantes, e ‘The Sons of your Funk Mother’, do Grits. Abaixo, o Fumaça Preta em ação no Barracão Estúdio.
Akoya - Introducing Akoya Afrobeat Ensemble (2004) e President
Dey Pass (2008)
Nova York é atualmente a cidade com cena afrobeat mais
intensa e talvez com os dois melhores grupos black-funky do mundo, ambos com
passagens antológicas pelo Brasil em 2012, Budos Band e Antibalas. Mas
revirando as produções recentes da cidade fica difícil entender porque a Akoya
Afrobeat Ensemble, bigband internacional
formada por 14 músicos dos EUA, Benin, Nigéria, Botsuana, África do Sul e até
Japão, não tem o mesmo reconhecimento no Brasil. Quase todos seus integrantes
participam ativamente da cena afro em NY, alguns tocaram com o Egypt 80, banda de Fela Kuti,
além de outros em projetos hypados, como o musical ‘Fela’, hit na Broadway com
integrantes do Antibalas, e ainda com Arcade Fire e Zozo Afrobeat.
Atualmente,
a Akoya está em estúdio finalizando seu terceiro disco previsto para ser
lançado ainda este ano. Ouça na playlist as melhores faixas dos dois primeiros
álbuns, ‘Introducing Akoya Afrobeat Ensemble’, de 2004, e ‘President DeyPass', de 2008, fácil, entre os melhores de afrobeat já produzidos em todos os tempos fora da
África.
A capa de ‘President
Dey Pass’ é criação do artista nigeriano Lemi Ghariokwu, famoso pelos
seus trabalhos em álbuns de Fela Kuti, Bob Marley e E.T. Mensah. Atenção na
faixa ‘Jeje L’aiye’, parceria com o grande Cedric Brooks, saxofonista jamaicano
dos Skatalites. O segundo disco da banda tem ainda participações de Tony Allen
e Seun Kuti. Abaixo, Akoya ao vivo com Cedric Brooks e Amayo, do Antibalas.
Reuben Wilson faz parte do seletíssimo grupo de
instrumentistas que deram ao jazz algumas de suas músicas mais grooveadas de
todos os tempos. Atualmente com 77 anos, o tecladista americano de Oklahoma, ex-boxeador
profissional, viveu sua fase de ouro entre 1968 e 1971 quando gravou cinco
discos pela Blue Note. Comparado e também influenciado pelo mítico Richard
‘Groove’ Holmes, Reuben Wilson está entre os músicos que inspiraram o
movimento acid-jazz dos anos 90. Entre eles, alguns dos preferidos aqui do
blog: Grant Green, Lou Donaldson, Bobby Hutcherson, Donald Byrd, Big John
Patton, Freddie Hubbard e Gene Harris (coletânea essencial da Blue Note tem todas
as pérolas dessa verdadeira seleção black).
Lançado em 1969, ‘Blue Mode’ é um clássico obrigatório para quem
gosta de soul-jazz, principalmente para os fãs dos teclados funkeados e
psicodélicos. Ao lado de Ruben Wilson, três craques: o sax tenor John Manning, o
baterista Tommy Derrick e guitarrista Melvin Sparks (presta atenção nesse nome,
tem vários discaços). Outra boa pedida é ‘Blue Break Beats’, coletânea de 1994,
com as melhores faixas dos seus cincos discos pela Blue Note.
Além da carreira solo, Reuben Wilson atuou também com sideman nas bandas
de Stanley Turrentine, Grant Green e do próprio Melvin Sparks.
21.8.12
budosband-sp-videos2012
Regressiva para Budos Band em SP: o que esperar no palco da super orquestra afrobeat de NY; veja trechos de shows de 2012
'Travel restriction eased a bit, SP! August! Let's do this!',
anunciou a Budos Band no Facebook, no dia 12 de julho, confirmando seu primeiríssimo show no Brasil e interrompendo (que honra!) uma seca de mais de
seis meses sem apresentações fora dos EUA. De lá para cá, contagem regressiva para
fãs de afrobeat de todo o país (carioca, oblogblack estará lá in loco). Agora,
faltando poucas horas para ver ao vivo, sexta e sábado, na Chopperia do Sesc
Pompeia (produção
do blog Só Pedrada, do brother Daniel Tamenpi), aquela que é talvez a melhor banda da tão falada
cena afro que pega fogo atualmente nos EUA, Europa, Oceania, Brasil, Argentina... post especial Budos Band mostra o
que esperar da orquestra de NY no palco.
Veja abaixo trechos de vários shows realizados em 2012 em turnê de costa a costa pelos EUA. Para começar, imagens em HD de show da Budos, em Paris, em 2011. Afrobeat hipnótico da melhor qualidade temperado com pitadas generosas de soul, jazz e funkão blaxploitation. Aumenta o som e deixa pegar fogo o caldeirão retrô-afro-groove da Budos Band.
Veja abaixo trechos de vários shows realizados em 2012 em turnê de costa a costa pelos EUA. Para começar, imagens em HD de show da Budos, em Paris, em 2011. Afrobeat hipnótico da melhor qualidade temperado com pitadas generosas de soul, jazz e funkão blaxploitation. Aumenta o som e deixa pegar fogo o caldeirão retrô-afro-groove da Budos Band.
The Budos Band - Live in Paris from mowno on Vimeo.
18.4.12
antibalas-oblogblack-soma
Em SP e Recife,
groove do Antibalas faz ponte entre afrobeat, jazz, funk e rock
(oblogblack na revista +Soma)
(oblogblack na revista +Soma)
Projetos paralelos com TV on the Radio, The Roots, Vampire
Weekend, musical na Broadway e disco novo saindo do forno: destaque da cena
afrobeat de NY, o Antibalas faz essa semana sua primeira turnê no Brasil com dois shows em
SP (dias 19, no Cine Joia, e 21, no Centro Cultural da Juventude), e um em
Recife (dia 22, no Abril Pro Rock).
E ainda esquenta para o show com faixas do Antibalas em mixtape só de afrobeat + playlist com os discos Soul Explosion (1998) e Who is this
America? (2004) + mapa da nova cena afro em matéria do blog publicada no
site do jornal O Globo.
Abaixo, ensaio do Antibalas já em SP, no estúdio Traquitana. Sonzeira!
Abaixo, ensaio do Antibalas já em SP, no estúdio Traquitana. Sonzeira!
9.3.12
cinematic-budosband-macacobong
>> playlist
Demorou 70 anos para o clássico russo ‘O Homem com uma
Câmera’ ganhar sua trilha mais grooveada e talvez definitiva. Criada nos anos
90 dentro dos escritórios da Ninja Tunes (Kid Koala, Jaga Jazzist, Herbaliser) pelo
compositor, DJ e multi-instrumentista Jason Swinscoe, a Cinematic Orchestra tinha acabado de lançar seu primeiro álbum,
‘Motion’, em 1999, quando recebeu convite do Festival Internacional de Cinema do
Porto para sonorizar o filme russo de 1929 que deu start ao chamado cinema-verdade. Considerada a película mais famosa de Vertov, diretor preferido de Lênin exatamente por buscar uma
linguagem diferente ao cinema ‘burguês’ do americano DW Griffith, ‘O Homem com
uma Câmera’ acompanha um dia de trabalho
na Rússia só com imagens de pessoas comuns, sem atores ou roteiro. Com cortes, edição e
ângulos modernos até para os padrões de hoje, o filme é
tão ousado que caiu com uma luva no jazz eletrônico da Cinematic Orchestra de Swinscoe e seu som meio soul, meio dark, com tintas de funk, trip-hop e dowbeat.
‘Há ritmo e repetição no filme. E isso é fantástico’, disse Swinscoe
em entrevista à BBC na apresentação do projeto.
O DVD levou quatro anos para ser lançado, mas o resultado é daqueles
raros para se guardar na estante da sala em local à mão bem visível. Para quem gosta de
cinema, documentário e música eletrônica, tudo ao mesmo tempo, um prato cheio. Agradou
tanto que a Cinematic Orchestra (que, aliás, já esteve por aqui duas vezes, no Tim Festival
de 2004, e no Multiplicidade, em 2009) depois saiu em turnê tocando as músicas do filme e acabaria incluindo
algumas delas em seus discos posteriores. O DVD de ‘O Homem com uma Câmera’ traz
ainda trechos do show da orquestra cinemática em Londres, vídeos com participações
especiais de Roots Manuva e Fontella, bastidores dos ensaios e mais
um documentário do Channel 4 com o making of. Veja abaixo trecho do show de 2002, no Cargo, Londres.
Budos Band – Budos Band II (2007)
Batizada primeiro como Barbudos Band, a orquestra de
afrobeat de NY encurtou o nome mas o som chega cada vez mais longe com turnês
de casa cheia pela Europa e elogios de DJs e revistas do mundo inteiro. Por
aqui, tem entre seus fãs a cantora Céu que colocou uma música do segundo disco
da banda entre seus preferidos em uma playlist dos sons que frequentam seu iPod.
A Budos Band tem três discos lançados desde a sua formação, em 2005, todos com o
mesmo nome seguido por numeral romano. Eles classificam seu som como afro-soul, mas
acho pouco... No caldeirão nervoso da Budos Band, hoje um das principais nomes
da gravadora Daptone Records (Sharon Jones, Daktaris, Charles Bradley) tem
também ethio-jazz, tintas de blaxploitation, muito funk old-school e um naipe
de metais para lembrar os melhores momentos do Africa 70 de Fela Kuti.
‘Budos Band II’ (ouça na playlist) mantém o climão retro-afro-groove da estreia
com pegada nervosa e solos hipnóticos. Só ouvindo para entender o poder
contagiante da banda nos discos e principalmente ao vivo. Aliás, tá aí uma
banda que já demorou muito para vir ao Brasil. Mas há esperança: nessa semana, saiu
a confirmação dos shows do Antibalas, também de NY e da mesma Daptone, em SP e no
Abril Pro Rock, em Recife. Com a cena afrobeat pegando fogo nos EUA e Europa –
e com cenário econômico ajudando - a tendência é que mais grupos bombados no
exterior dêem as caras. Abaixo, a Budos Band em ação tocando 'Origin of a Man', a escolhida na playlist da Céu.
Macaco Bong – Artista Igual Pedreiro (2008) e This is Rolê
(2012)
O power trio de Cuiabá Macaco Bong esquenta palhetas e
baquetas liberando uma playlist com pré-gravações e versões cruas de 10 músicas
do seu segundo disco, ‘This is Rolê’, com lançamento previsto para maio. Depois
da estreia avassaladora com a pedrada ‘Artista Igual Pedreiro’, de 2008,
escolhido um dos melhores discos do ano pela ‘Rolling Stone’, a banda acabou
com três anos de jejum sem lançar faixas inéditas em 2011, com o EP 'Verdão Verdinho'. Se o primeiro disco foi todo
instrumental com riffs pesados que lembravam em seus melhores momentos a Jimi Hendrix Experience (ouça na playlist), no EP o Macaco pegou bem mais leve, mas a
trégua pelo visto acabou. A
expectativa para o segundo álbum é de nova pancadaria roqueira com possibilidade de haver vocalistas
convidados em algumas faixas.
Formado em 2004, o Macaco já tocou no SWU e abriu para o System Of a
Down, em SP, em 2011. A nova formação estreou agora em fevereiro, no
Grito Rock de BH, com o set list já incluindo algumas novas faixas de 'This is
Rolê'. Abaixo, 'Amendoim', totalmente Hendrix.
14.10.11
davebrubeck-luizgonzaga-chicagoafrobeat
>> playlist
The Dave Brubeck Quartet - Time Out (1959)
Dave Brubeck é daqueles nomes polêmicos no jazz. Quando o álbum 'Time Out' explodiu nos EUA puxado pelos clássicos 'Take Five' e 'Blue Rondo a la Turk', não teve jeito: os puristas não engoliram o sucesso estrondoso do grupo mais pop do chamado ’west coast jazz’, um estilo mais lento - ‘cool' - que o hardbop que fazia sucesso em Chicago e Nova York. Começava de novo a velha briga entre conseguir atingir um grande público e ao mesmo tempo não deixar de ser inovador.
Pois é exatamente nesse ponto que está a maior qualidade do quarteto da Califórnia formado por Dave Brubeck, Paul Desmond, Eugene Wright e Joe Morello: o grupo chegou ao posto de nº 2 da Billboard em 1961 com um disco cheio de experimentações. Os dois hits do álbum são exatamente as faixas mais vanguarda ao abdicar do tradicional compasso 4/4 do jazz chegando ao desafiador 5/4 de ‘Take Five’ e ao novíssimo 9/8 misturando blues, clássico e até folk africano e turco em ‘Blue Rondo’.
‘Nunca achávamos que 'Take Five' viraria um hit, na verdade, no início era para ser só um solo do Joe Morello’, conta Paul Desmond no encarte do vinil reproduzido depois na arte do CD.
Em 2009, a gravadora de Dave Brubeck, Columbia/Sony, lembrou os 50 anos do disco relançando ‘Time Out’ acompanhado de um DVD com os bastidores das gravações e um CD bônus com oito músicas em versões inéditas do Festival de Newport de 1961, 1963 e 1964.
(Mais dois discaços do mesmo ano também mereceram comemoração com edições especiais para colecionadores: ‘Sketches of Spain’, de Mlies Davis, e ‘Mingus Ah Um’, de Charles Mingus).
Veja abaixo o quarteto tocando ‘Take Five’ e depois documentário da BBC sobre o ‘cool jazz’ com Brubeck falando sobre ‘Time Out’ ainda em fase de gravação; o vídeo traz ainda imagens incríveis do pintor Jackson Pollock e de surfistas na Califórnia em ação com um improvável solo de jazz ao fundo.
Luiz Gonzaga – 50 anos de chão (1996)
Nascido em uma fazenda na pequena Exu, no sertão de Pernambuco, Luiz Gonzaga inventou o casamento da sanfona com a zabumba e o triângulo, virou o Rei do Baião e entrou para história como um dos maiores artistas da música popular brasileira. Gonzagão compôs ao longo de mais de 40 anos de carreira uma lista interminável de clássicos ao lado dos parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas (‘Respeita Januário’, ‘O Xote das Meninas’, ‘Forró de Mané Vito’, ‘Vem Morena’) e acima de todos um hino que representa não só o sertanejo nordestino, mas todo o povo brasileiro: ‘Asa Branca’.
Nascido em uma fazenda na pequena Exu, no sertão de Pernambuco, Luiz Gonzaga inventou o casamento da sanfona com a zabumba e o triângulo, virou o Rei do Baião e entrou para história como um dos maiores artistas da música popular brasileira. Gonzagão compôs ao longo de mais de 40 anos de carreira uma lista interminável de clássicos ao lado dos parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas (‘Respeita Januário’, ‘O Xote das Meninas’, ‘Forró de Mané Vito’, ‘Vem Morena’) e acima de todos um hino que representa não só o sertanejo nordestino, mas todo o povo brasileiro: ‘Asa Branca’.
Quando chega a hora de ouvir o bom e velho forrozinho, a sanfona de oito baixos de Luiz Gonzaga é inigualável. Por isso, pode separar espaço na estante para a coletânea '50 anos de chão', lançada em 1996 com gravações originais do mestre Lua em todas suas fases. São três CDs, cobrindo período de 1941 a 1987, e acompanhando um livro com texto de João Máximo recheado de fotos históricas.
Em 2009, Gilberto Gil foi convidado para fazer a trilha do filme ‘Eu, tu, eles’, de Andrucha Waddington. Acabou lançando um disco homônimo também obrigatório só com clássicos de Gonzagão. Algumas dessas músicas estão no DVD ‘Fé na Festa ao vivo’, de 2010. Veja abaixo Gil cantando ‘Respeita Januário’; depoi tem entrevista com o próprio Gonzagão para TV Cultura e para fechar um áudio impagável que traz o Rei do Baião contando causo sobre a sua ‘Karolina com K’ com aquele forrozinho instrumental de raiz no fundo. Dá quase para sentir o cheirinho de terra. Eita... Gênio!
Chicago Afrobeat Project - Move to Silent Unrest (2007)
Com um big band de onze músicos afiados, repertório que dá espaço para longos solos e participação incendiária no palco de dançarinas afro, a Chicago Afrobeat Project faz atualmente um dos shows mais badalados e empolgantes da costa oeste dos EUA. Formada em 2005, a banda tem três discos no currículo e fãs famosos que vão do grupo de vanguarda Tortoise ao baterista ganhador de sete prêmios Grammy Paul Wertico.
‘Move to Silent Unrest’, segundo álbum da banda, foi feito em parceria com o produtor do Tortoise e tem participação de um dos mais festejados guitarristas de jazz da nova geração dos EUA, Bobby Broom. Dez das onze faixas do álbum são instrumentais (a maioria de longa duração) e a nigeriana Ugochi Nwaogwugwu assume o vocal em ‘Media Man’.
Afrobeat está lá no nome, mas a banda gosta de dizer que o ritmo criado por Fela Kuti é só o primeiro ingrediente no caldeirão black para um som com pitadas generosas de jazz, soul, rock e até hip-hop. Enquanto bandas similares como Antibalas e Nomo, ambas de NY, são fortemente influenciadas pelo funk e jazz, a banda da terra do blues opta por um som instrumental impregnado de soul e free-jazz como marca registrada.
Veja abaixo o grupo em ação ao lado das dançarinas da Chicago Muntu Dance Theatre; no vídeo seguinte tem fotos de shows e capas dos discos ao som de 'Media Man'. Esquenta perfeito para o Fela Kuti Day. Aumenta o som.
26.8.11
ikebe-herbiehancock-vieuxfarka
>> playlist
Ikebe Shakedown (2011)
Soul americano anos 60 e funk africano década de 70. É nesse caldeirão que a big band instrumental do Brooklyn, Ikebe Skakedown, vai buscar referências para o seu ‘hard-hitting-afro-funk’ que vem bombando em festas black de NY. O homônimo ‘Ikebe Shakedown’ é o segundo disco da banda, o primeiro gravado em LA, no Killion Sound, mesmo estúdio de bandas hypadas na cena black dos EUA, como Orgone, The Lions e Breakestra. A produção é do guitarrista dos Dap-Kings, Thomas Brenneck, cabeça do Menaham Street Band (veja post).
Na playlist, cinco músicas do ‘ee-kay-bay’ (nome da banda é uma homenagem a um disco de boogie nigeriano). Uma delas, ‘Sankonsa’, acaba de ser usada no filme de lançamento do Mini-Coupe (veja vídeo abaixo). Detalhe é o carro ‘desfilando’ no Sambódromo do Rio.
Ele começou tocando com Donald Byrd, foi logo em seguida contratado por Miles Davis, assinou com a Blue Note, gravou pela Sony, Columbia, Verve, passou pelo hardbop, blues, funk, clássico, e incrivelmente, prestes a completar 50 anos do seu primeiro disco solo, ‘Taking off’, de 1962, continua se reinventando. Prodígio que aos 11 anos já tocava Mozart na Sinfônica de Chicago, Herbie Hancock foi o primeiro músico a ganhar o maior prêmio do Grammy com um álbum de jazz, com ‘River: The Jonie Letters’, em 2009, recriando músicas de Joni Mitchell ao lado de Wayne Shorter e Dave Holland. Em 2010, Hancock estava de novo à frente de um discaço juntando nomes como Dave Matthews, Anoushka Shankar, Jeff Beck, Pink e Chaka Khan em ‘The Imagine Project’, gravado em sete países.
Mas a dica do blog vai lá atrás resgatar dois discos dos anos 60, na Blue Note, ‘Empyrean Isles’, de 1964, e ‘Maiden Voyage’, de 1965, quando Hancock começava a aparecer para o mundo do jazz como compositor e já líder de uma superbanda formada pelo baixista Ron Carter, o baterista Anthony Williams, o grande trompetista Freddie Hubbard, morto em 2008, e o saxofonista George Coleman (só em ‘Maiden Voyage’). Preparado para uma viagem quase alucinógena por solos de piano, trompete, baixo e bateria com pesos pesados do jazz no auge? Entra no clima com 'Cantaloupe Island' do DVD 'One Night in Blue Note' (atenção no solo do Freddie Hubbard). E na playlist tem as melhores dos dois discos.
Vieux Farka Touré - The Secret (2011)
Fica difícil para o filho daquele que é talvez o melhor - certamente, o mais conhecido – guitarrista africano dos últimos anos não repetir o caminho do pai. Para evitar a responsabilidade e toda expectativa, Ali Farka Touré fez de tudo para Vieux não entrar para o mundo da música. Ali, vítima de câncer em 2005, radicalizou e queria que o filho seguisse a carreira militar. Vieux aceitou os conselhos – mas até certo ponto. Aos 18 anos, o sangue acabou falando mais alto e ele entrou para Instituto de Artes do Mali, na capital Bamako. Era o início de uma carreira meteórica. Talentoso, Vieux foi chamado para tocar na banda do mestre da kora, Toumani Diabaté. Viajou, ganhou experiência e mostrou que definitivamente os planos do pai ficavam para trás. Aos 24 anos, recebeu convite para gravar seu primeiro disco. O produtor, Eric Herman, precisou pedir autorização para Ali Farka Touré. O disco saiu em 2007 e com participações especiais da dupla Ali-Toumani. Vieux repetiria o sucesso com ‘Fondo’, de 2009. No ano seguinte, foi um dos convidados do show de abertura da Copa do Mundo, na África do Sul. No palco, ao lado de estrelas da música africana, como Amadou e Mariam, Vieux mostrou para o mundo que estava pronto para carreira internacional e logo depois lançaria mais um discaço, ‘Live’. Em ‘The Secret’, de 2011, candidatíssimo a um dos melhores álbuns africanos do ano, Vieux Farka Touré estourou ao mesclar com maestria o blues do pai, com suas raízes do Mali e um toque americano-europeu que faz sua música descer sem estranhamento em qualquer parte do mundo.
Produzido pelo guitarrista do ótimo Soulive, banda de soul-funk dos EUA, Erik Krasno, ‘The Secret’ tem participações de estrelas como Dave Matthews, John Scofield, veterano do jazz com participações nos grupos de Miles Davis e Herbie Hancock, e Derek Trucks, ex-The Allman Brothers. Para os fãs do pai, a homônina ‘The Secret’ tem um dos últimos registros do grande Ali Farka Touré antes de sua morte. Mistura tranqüila e cool de rock, jazz, funk e blues que não deixa dúvida: o Mali ganhou mais um nome para sua enorme galeria de talentos.
12.8.11
funkykingston-toots-lateef-menahanstreet
>> playlist
Toots & the Maytals (1973) + Reggae Dancefloor Grooves (2002) - Funky Kingston
Primeiro disco de Toots & the Maytals para a Island, gravadora de Bob Marley fundada pelo inglês Chris Blackwell, em 1961, na Jamaica, ‘Funky Kingston’, de 1973, vai além do reggae tradicional com uma levada groove influenciada por James Brown e toda cena soul do começo dos anos 70. O álbum foi relançado pela Mango dois anos depois com a música ‘Pressure Drop’, trilha do filme ‘The harder they come’ (veja cena abaixo). Clássicos como ‘Pomp and Pride’ e ‘Time Tough’ acabaram inspirando roqueiros de várias gerações como Clash, Police, Ben Harper e The Roots, e até hoje fazem efeito em qualquer pista de dança black pelo mundo.
Quase 30 anos depois do disco original, o nome ‘Funky Kingston’ reapareceu em coletânea homônima da gravadora Trojan, uma das mais importantes e influentes do reggae, especializada em sons jamaicanos como ska, dub e rocksteady. Toots abre e fecha a seleção de 20 músicas, todas com mesmo toque soul-funky do primeiro álbum. Na lista, nomes conhecidos como Lee Perry, Pioneers e, claro, Bob Marley (‘Soul Almighty’ foi a escolhida), além de bandas menos badalas. Para deixar tocar direto.
Yusef Lateef - Eastern Sounds (1961)
Perguntado se concordava com a fama de precursor da ‘world music’ ao gravar o superclássico ‘Eastern Sounds’, em 1961, Yusef Lateef, do alto de seus 90 anos, soltou uma gargalhada e passou para pergunta adiante. Escritor, filósofo, artista plástico e multi-instrumentista com passagens pelas bandas de Dizzy Gillespie, Miles Davis, Charles Mingus, Donald Byrd e Cannoball Adderley, Lateef fica à vontade falando sobre assuntos densos e vai fundo ao explicar o que o mantém em atividade após carreira de mais de 70 anos nos palcos - em fevereiro, se apresentou pela primeira vez no Brasil, com casa cheia no Sesc Pompeia (veja entrevista no vídeo abaixo).
‘O que eu procuro é mergulhar dentro daquilo que sou. O que me mantém ativo é a busca do significado do presente, uma curiosidade existencial’.
Americano do Tennessee nascido William Emanuel Huddleston, hoje muçulmano, Lateef toca ao todo quatro instrumentos no obrigatório ‘Eastern Sounds’: sax, flauta, oboé e o milenar xun. São apenas nove músicas, sempre com influência direta de sons asiáticos, numa mistura perfeita entre o groove do jazz e a paz oriental. Ouça na playlist ‘Blues for the Orient’, ‘Snafu’ e ‘Chinq miau’.
Detalhe: no show de Lateef em SP, o trompete ficou com americano radicado no Brasil, Rob Mazurek, criador da Chicago Underground Orchestra, com participações em álbuns do Tortoise e Stereolab, e parceiro dos brasileiros do Hurtmold.
Menahan Street Band - Make the Road by Walking (2008)
Meio soul, meio jazz, com atmosfera funk e influência dub-afrobeat. Disco de estreia da Menahan Street Band, uma das apostas da Daptone Records, do fenômeno black Sharon Jones, ‘Make the Road by Walking’ foi gravado em um apartamento no Brooklyn, NY, por uma superbanda formada por integrantes dos Dap-Kings, El Michels Affair e Budos Band, todos grupos hypados na cena black dos EUA. A música homônima que abre o álbum foi sampleada por Jay-Z, em ‘Roc Boys’, eleito melhor single de 2007 pela revista Rolling Stone. Com influências que variam de Curtis Mayfield a Mulatu Astatke, o disco mostra uma banda afiada, solta, caprichando nas texturas e detalhes. Para ouvir relax num dia de sol. Veja abaixo a Menahan tocando com Charles Bradley, outra revelação black da Daptone.
20.6.11
whitefieldbrothers-macrotones-almaz
>> playlistWhitefield Brothers – In the raw (2002) e Earthology (2009)
Macrotones - Wayne Manor (2008) e First Signs of Danger (2011)
Abrir shows para bandas como Budos Band, Nomo e Sierra Leone's Refugee All Stars já seria o suficiente para ficar ligado no desempenho em estúdio do Macrotones. Pois bem, foram dois discos até agora e potencial de sobra para o combo formado por 11 músicos de Boston entrar de vez na lista de revelações da nova cena afrobeat da costa leste dos EUA. O primeiro, 'Wayne Manor’, de 2008, é todo instrumental, carregadíssimo na percussão, com solos matadores do quarteto de metais. Em ‘First Signs of Danger’, lançado em maio, o Macrotones incorpora elementos de funk, soul, ethiojazz e rock. Afrobeat com altas doses de jazz para embalar a noite ou inspirar o final de tarde.
Seu Jorge e Almaz (2010) Seu Jorge apareceu no Farofa Carioca, surpreendeu como ator em ‘Cidade de Deus’, fez disco internacional com covers de David Bowie, foi ainda mais longe com a carreira solo, mas é no Almaz onde ele parece estar em casa. O que era para ser só uma parceria para a trilha do filme ‘Linha de Passe’, de Walter Salles, acabou se transformando em um dos projetos mais bem sucedidos dos últimos anos na música groove brasileira. ‘Seu Jorge e Almaz’ foi lançado, em 2010, com shows nos Estados Unidos, Japão e Europa. Quando o grupo finalmente começou a turnê pelo Brasil, o que era bom no CD ficou incrível ao vivo.
O quarteto começou a ganhar forma ainda em 2008 num show do Maquinado, projeto paralelo de Lúcio Maia, do Nação Zumbi, para muitos a melhor banda do rock brasileiro dos últimos anos. Seu Jorge fechava sua participação cantando ‘Juízo final’, de Nelson Cavaquinho, quando o guitarrista deu a pista: ‘E aí, vai morrer aqui?’ Nada... quando veio o convite de Walter Salles, Pupillo, também do Nação, assumiu a bateria e o músico Antônio Pinto, autor das trilhas de ‘Cidade de Deus’ e ‘Central do Brasil’, atacou no baixo. Estava formado o quarteto base do Almaz. Para completar o timaço, o superprodutor Mario Caldato Júnior, do Beastie Boys e D2.
Incrível como a voz de Seu Jorge encaixa perfeito com o instrumental psicodélico de Lúcio Maia e Pupillo dando um climão enfumaçado e vintage para clássicos da MPB e do rock. Tem de Jorge Benjor a Kraftwerk passando por Michael Jackson, Tim Maia e Baden Powell. Abaixo, trecho e bastidores do showzaço do Almaz no Circo Voador, no RJ.
16.3.11
antibalas-daktaris-boubacar-montgomery

Daktaris - Soul Explosion (1998)
Antibalas - Who is this America? (2004)
‘Soul Explosion’ é talvez o marco zero no renascimento do afrobeat em NY. Com metais nervosos e guitarras funkeadas impregnadas de sangue nigeriano até a alma, o álbum do Daktaris de 1998 inspirou toda uma nova geração de músicos locais e foi trilha sonora para festas black que bombavam na cidade como a Africalia. Nesse caldeirão de influências, referências e noitadas, o Daktaris juntou forças com Soul Providers e King Changó e renasceu ainda melhor como Antibalas para virar um dos destaques da hoje mais que estabelecida cena afrobeat de NY. ‘Who is this America’, de 2004, é o terceiro disco de estúdio do grupo e marca estreia na prestigiada gravadora Ropeadope. Com solos incendiários de sax e trombone, groove afiado e letras politizadas, o Antibalas mostra que os garotos brancos de NY (maioria na atual formação com 14 integrantes) querem muito mais do que ser uma releitura do mestre Fela Kuti. Os dois álbuns trazem um black funk intenso para bombar palcos e festas pelo mundo. Yeah, man, a África respira forte no Brooklyn.
Boubacar Traoré – Kongo Magni (2005)
Não conhece a música do Mali? Blues africano? Acha que é tudo world music? Pois Boubacar Traoré e os conterrâneos Ali Farka Touré e Toumani Diabaté são nomes indispensáveis e porta de entrada para um país riquíssimo na história da música. Damon Albarn (Blur e Gorilaz), inquieto e antenado, foi lá conferir, passou uma temporada no país e produziu o excelente e pouco divulgado álbum ‘Mali Music’, de 2002. Ali Farka e Toumani são hoje nomes estabelecidos fora da África e fazem turnês constantes por Europa e EUA. Já Boubacar, ou Kak Kar (que significa aquele que dribla muito), é um nome bem menos divulgado e foi para mim uma descoberta a partir do hit ‘Kar Kar Madison’ em uma coletânea. ‘Kongo Magni’, seu último álbum, de 2005, é daqueles discos para tocar inteiro, deixar no repeat, ouvir no dia seguinte, servir de trilha para festa, final de tarde, fim de noite, no carro, e depois correr atrás dos outros CDs. O guitarrista de 69 anos viveu fase de ouro nos anos 60, foi um dos símbolos da independência no seu país com o hit 'Mali Twist', depois caiu no esquecimento, acabou ralando na construção civil na França até ser redescoberto e gravar seu primeiro CD oficial em 1994. Aí decolou. Hoje faz shows aclamados e tem agenda cheia em festivais pelo mundo. Seu som é uma mistura deliciosa de guitarra e gaita, com vocal ora potente ora minimalista, e uma cozinha instrumental requintada com gostinho meio África, meio Chicago, puro Mali.
Wes Montgomery é figura fácil em todas as listas de melhores guitarristas da história do jazz. Tem a técnica de Django Reinhardt e Kenny Burrell, o groove de Grant Green e toda a importância histórica do seu mestre Charlie Christian, primeiro grande solista do jazz ainda na década de 20. ‘Full House’ foi gravado ao vivo com o trio do pianista Wynton Kelly, em 1962, com nada menos que Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb na bateria, dupla com passagem pelos grupos de John Coltrane, Miles Davis, Sonny Rollins e Bud Powell. Montgomery apareceu para o mundo do jazz com o clássico ‘The incredible jazz guitar of Wes Montgomery’, de 1960, e brilhou nos anos seguintes no seu trio ou em duetos com o mestre do hammond Jimmy Smith. É daqueles músicos que fazem o complexo parecer simples. As notas fluem tranquilas como um grande solo onde as melodias vão se encaixando perfeitas.
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