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9.2.12
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The Velvet Underground (1969)
Andy Warhol produzindo, a modelo alemã Nico cantando e Lou Reed e John Cage extrapolando os limites da música fazendo uma mistura experimental, vanguardista e acelerada de rock com poesia. O Velvet Underground fez história nos seus dois primeiros álbuns com músicas que virariam hinos como ‘Heroin’, ‘Venus in Furs’, ‘White Light/White Heat’ e ‘Lady Godiva’. Mas a receita começou a desandar logo após a estreia e Warhol e Nico foram as primeira baixas. Depois, em 1968, o Velvet perderia também John Cage, então desafeto de Reed. Terceiro álbum de estúdio da banda de NY, o homônimo ‘The Velvet Underground’ foi lançado em 1969 surpreendendo com uma fórmula totalmente inesperada: letras reflexivas numa levada calma e relaxada. Coincidência ou não para súbita mudança de rumo, o Velvet teve todos seus amplificadores roubados antes da entrar em estúdio. E de novo fez um disco antológico.
A atitude rock dos tempos de Warhol-Nico-Cage ainda está lá, assim como o clima cool e as letras inspiradas. ‘What Goes On’ e ‘Beginning to See the Light’ são as mais aceleradas, e ‘The Murder Mystery’, com suas colagens de poesias, a mais experimental. Seis das dez faixas são composições de Lou Reed e voltariam anos depois nos seus discos solos, como ‘Candy Says’ e ‘Some Kinda Love’. Outro destaque do álbum é ‘Pale Blue Eyes’, sucesso no Brasil nos anos 90 na voz de Marisa Monte.
Os
quatro discos de estúdio do Velvet foram relançados nos anos 80. Seus integrantes originais voltariam a tocar juntos na década de 90, mas depois de alguns shows pela Europa e um disco ao vivo duplo com 23 músicas, de 1992, a banda se separou após nova briga entre Cale e Reed. A excelente ‘Some Kinda Love’ abre a playlist que tem ainda mais cinco faixas dos dois primeiros álbuns. Abaixo, a clássica 'Heroin', Paris, 1993.
Está lá nos créditos em letras bem miúdas: produtor, Eric Clapton. Blueseiro de carteirinha e fã de longa data de Buddy Guy, o inglês ex-Yardbirds, Cream e Blind Faith já era um dos maiores guitarristas da música mundial quando convenceu Ahmet Ertegun, o todo poderoso da Atlantic Records, a assinar com o guitarrista de Chicago para um disco ao lado do parceiro Junior Wells, ex-gaitista de Muddy Waters. O encontro Clapton e Ertegun aconteceu em 1970, em Paris, logo após show de Guy e Wells abrindo apresentação dos Rolling Stones. Ali mesmo nos camarins, Ertegun concordou, mas deu sua condição: queria Clapton em pessoa como produtor do álbum. 'God' aceitou e ainda ganhou outro mito da música black como engenheiro de som, Tom Dowd, ex-Coltrane, Mingus e Ray Charles. As gravações em Miami aconteceram no mesmo ano, mas sob clima conturbado com seguidas divergências entre Clapton e Ertegun. Por causa disso, ‘Play the Blues’ só seria lançado dois anos depois e com duas músicas extras gravadas em nova jam em NY.
Faixas como ‘T-Bone Shuffle’, ‘My Baby She Left Me’ e ‘Messing with the Kid’ são uma aula do mais puro blues de Chicago com Guy e Wells, então na casa dos 40 anos, tocando como veteranos e totalmente afiados após centenas de shows juntos. Destaque ainda para os solos de sax de A.C. Reed, para Dr. John no piano e, claro, para Clapton fazendo apoio de luxo como guitarra base. ‘Play the Blues’ seria depois relançado em 1992 com encarte e faixas extras do material gravado em Miami. Abaixo, Buddy Guy e Clapton juntos em 1969 e 1987.
Tidiani Koné and Orchestre Poly-Rythmo
Trompetista e saxofonista dos mais inovadores e importantes da África e fundador da melhor orquestra de afro-cuban-jazz do Mali, a Super Rail Band, Tidiani Koné deixou seu país de origem nos anos 70 para fazer história na mítica Orchestre Poly-Rythmo com seus solos incendiários dando aula de como usar os metais no afro-funk. Koné depois voltaria a morar em Bamako sem participar dos shows concorridíssimos da nova fase da Poly-Rythmo (morreu antes sendo homenageado no disco de 2010, Cotonou Club). Nesse álbum raríssimo de apenas duas músicas (vendido em sites de leilão por mais de US$ 200), Koné aparece como band-leader em 20 minutos do mais puro groove. Quem curtiu a excelente coletânea ‘African Scream Contest’, da Analog Africa, vai logo identificar os solos de ‘Djanga Magni’. Mais uma chance para ouvir Tidiani Koné desfilando seu talento com o petardo black em versão estendida. Atenção para cozinha de respeito misturando kora e balafon com guitarra e teclados.
16.12.11
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Hank Mobley - No Room for Squares (1963)
Nova York sempre concentrou uma quantidade enorme de músicos geniais por quilômetro quadrado freqüentando os mesmos shows, bares e festas. Boa dica então para antecipar o potencial de um bom disco de jazz e descobrir CDs daqueles obrigatórios para coleção é olhar com atenção a banda que acompanha o autor que assina o disco, ali podem estar verdadeiras seleções convocadas especificamente para tocar naquele projeto e depois em jams ao vivo. Ao contrário de quartetos e quintetos fixos, como as bandas de Miles Davis, Thelonious Monk e John Coltrane, são grupos de alta rotatividade formados somente para tocar composições criadas naquele período. É comum então ver nomes como Jimmy Smith, Grant Green, Art Blakey, Donald Byrd, Joe Henderson, Blue Mitchell e outros se revezando tocando uns nos discos dos outros.
Nova York sempre concentrou uma quantidade enorme de músicos geniais por quilômetro quadrado freqüentando os mesmos shows, bares e festas. Boa dica então para antecipar o potencial de um bom disco de jazz e descobrir CDs daqueles obrigatórios para coleção é olhar com atenção a banda que acompanha o autor que assina o disco, ali podem estar verdadeiras seleções convocadas especificamente para tocar naquele projeto e depois em jams ao vivo. Ao contrário de quartetos e quintetos fixos, como as bandas de Miles Davis, Thelonious Monk e John Coltrane, são grupos de alta rotatividade formados somente para tocar composições criadas naquele período. É comum então ver nomes como Jimmy Smith, Grant Green, Art Blakey, Donald Byrd, Joe Henderson, Blue Mitchell e outros se revezando tocando uns nos discos dos outros.
É o caso do excelente ‘No Room for Squares’, de 1963, do já genial - e
pouco reconhecido - Hank Mobley, um dos
grandes saxofonistas do harbbop com passagens pelos grupos de Dizzy Gillespie,
Horace Silver e Miles Davis. Nesse disco (como na grande maioria dos projetos
gráficos feitos pela Blue Note nos anos 60) a escalação está lá na capa,
escancarada, não fica nem tão complicado identificar logo de cara que é quase
impossível não sair dali uma super sessão. A escalação começa com ninguém menos que
o genial Lee Morgan, que
assina duas das seis faixas e no mesmo ano gravaria um dos melhores discos de
jazz de todos os tempos, ‘Sidewinder; no piano, o grande Herbie Hancock em começo de carreira, um ano após seu disco
de estreia, ‘Takin’ Off’, e em meio à
gravação do excelente ‘My Point of View’; no baixo, o ex-Thelonious Monk, John Ore, e ainda Donald Byrd, Butch Warren, Andrew Hill e fechando o timaço, o ex-Miles Davis, Charlie Parker e Dizzy
Gillespie, Philly Joe Jones. Por aí já dá para esperar improvisações
inspiradíssimas guiadas por temas de Mobley altamente influenciados pelo efeito
John Coltrane no jazz. Hardbop carregado de blues.
Do mesmo Hank Mobley, mais dois discos também da década de
60 são fundamentais na lista dos melhores álbuns de hardbop: ‘Soul
Station’, de 1960, que marca sua estreia como líder, acompanhado dos cracaços Art Blakey (bateria), Paul Chambers (baixo) e Wynton Kelly (piano); e ‘A
Caddy for Daddy’, de 1965, esse já altamente influenciado pelo groove black do
funk que dominava os EUA. Todos
altamente recomendados.
Stephen Malkmus and The Jicks - Mirror Traffic (2011)
Guitarrista ex-líder do Pavement, Stephen Malkmus reaparece com seu projeto solo à frente do The Jicks com um dos melhores álbuns roqueiros do ano e certamente no nível de qualquer um dos seus discos anteriores que marcaram a cena indie na década de 90. Aos 45 anos, músico de mão cheia e criador de sonoridades complexas, pouco óbvias e até certo ponto estranhas, Malkmus soa mais solto e relaxado nesse quinto disco com os Jicks. Essa talvez seja a melhor qualidade do álbum: descomplicar faixas sofisticadas e transformá-las em canções acessíveis, às vezes próximas do seu trabalho no Pavement, mas ao mesmo tempo longe de repetir fórmulas. A parceira com o Beck (‘Odelay’ e ‘Mellow Gold’), em excelente forma criativa, ajudou a suavizar o espírito experimental de Malkmus. Com sacadas poéticas e irônicas, ‘Mirror Traffic’ consegue ser crítico, excêntrico, básico e até nonsense, tudo na medida certa.
Guitarrista ex-líder do Pavement, Stephen Malkmus reaparece com seu projeto solo à frente do The Jicks com um dos melhores álbuns roqueiros do ano e certamente no nível de qualquer um dos seus discos anteriores que marcaram a cena indie na década de 90. Aos 45 anos, músico de mão cheia e criador de sonoridades complexas, pouco óbvias e até certo ponto estranhas, Malkmus soa mais solto e relaxado nesse quinto disco com os Jicks. Essa talvez seja a melhor qualidade do álbum: descomplicar faixas sofisticadas e transformá-las em canções acessíveis, às vezes próximas do seu trabalho no Pavement, mas ao mesmo tempo longe de repetir fórmulas. A parceira com o Beck (‘Odelay’ e ‘Mellow Gold’), em excelente forma criativa, ajudou a suavizar o espírito experimental de Malkmus. Com sacadas poéticas e irônicas, ‘Mirror Traffic’ consegue ser crítico, excêntrico, básico e até nonsense, tudo na medida certa.
A volta do Pavement para turnê mundial pensada a partir da coletânea
‘Quarantine The Past’ (com shows feitos inclusive no Brasil) acabou atrasando um pouco o
lançamento ‘Mirror Traffic’. A banda tocou com os mesmos integrantes da formação
original. Ao contrário do que muitos fãs esperavam, a reunião não rendeu outro
disco inédito (o último foi 'Terror Twilight', de 1999).
Veja abaixo clipe da música ‘Senator’, de ‘Mirror Traffic’, com
Jack Black vivendo o papel de um político corrupto; e depois duas de Malkmus tocando com
o Pavement em São Paulo.
Batatinha - Samba da Bahia (1973) e Diplomacia (1998)
Paulinho da Viola comparou Batatinha aos geniais Cartola e Nelson
Cavaquinho em texto para contracapa do disco ‘Samba da Bahia’, de 1973. Foi o primeiro
registro em vinil do sambista de Salvador, dividindo o álbum com parceiros das antigas do Pelourinho, Riachão e Panela. Antes, Jamelão já havia gravado ‘Jajá
da Gamboa’ e Glauber Rocha usado ‘Diplomacia’ no filme ‘Barravento'. Maria
Bethânia foi além. Apaixonada pela obra de Batatinha, que ganhou fama em
Salvador ao brilhar em concursos de calouros em rádios locais, Bethânia juntou duas
músicas suas em seu primeiro disco e dedicou a ele um bloco inteiro do show ‘Rosa
dos Ventos’. Foi aí que, fechando o ciclo, apareceu Paulinho da Viola para dar o
empurrão definitivo na afirmação de Batatinha como grande compositor da MPB ao
produzir ‘Samba da Bahia’. Era a primeira vez que Batatinha cantava suas próprias
composições – ‘tristíssimas para um dia de carnaval’, como disse a irmã de
Caetano.
A ideia de Paulinho da Viola era apresentar uma nova geração de sambistas
baianos até então pouco conhecidos no eixo Rio-SP (apesar dos esforços de
Jamelão e Bethânia). Além de Batatinha, ‘Samba da Bahia’ traz as clássicas ‘Cada
Macaco no seu Galho’ e ‘Vou Chegando’, de Riachão, e ‘O
Patrão é meu Pandeiro’, de Panela. O disco foi todo gravado em um estúdio improvisado
no teatro Vila Velha.
Pioneiro ao misturar samba e capoeira e totalmente avesso à
fama, Batinha morou no Pelourinho durante toda sua vida. Morreu em 1997, aos 72
anos, pouco depois de gravar o disco ‘Diplomacia’, seu primeiro álbum individual
produzido após pesquisa fundamental da dupla Paquito e J. Veloso registrando
músicas nunca antes gravadas.
Após sua morte, o músico virou nome do circuito de blocos
de carnaval que passa pelo Pelourinho e foi homenageado com dois documentários: ‘Batatinha
e o Samba Oculto da Bahia’ e ‘Batatinha – O Poeta do Samba’. Veja abaixo
trechos dos filmes e também do excelente programa 'Ensaio'.
28.10.11
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Stone Roses – Second Coming (1994)
Está marcado: dia 29 de junho de 2012, o Stone Roses pisará no palco montado no Heaton Park, em Manchester, para seu primeiro show em 15 anos abrindo uma turnê que deve rodar a Europa, talvez passar pelos EUA e – com muita sorte e dedicação de algum produtor com alma de fã – chegar algum dia ao Brasil. A comoção com a notícia da volta do quarteto ícone da cena ‘madchester’ foi tão grande na Inglaterra que os 220 mil ingressos para as três apresentações, com preços a partir 55 libras, se esgotaram em pouco mais de uma hora. No e-Bay, apareceram lances de até 1milhão de libras por uma entrada.
Da mesma geração de grupos como Charlatans, Inspiral Carpets e Happy Mondays, Ian Brown, John Squire, Gary ‘Mani’ Mounfield e Alan ‘Reni’ Wren lançaram apenas dois discos, o suficiente para virar uma das bandas mais emblemáticas do rock inglês recente. Músicas como ‘She Bangs the Drums’, ‘Fool's Gold’, ‘I Wanna be Adored’, ’Waterfall’ e ‘I am the Resurrection’ viraram verdadeiros hinos da geração pré-Oasis, Verve e Blur no final dos anos 80 e início dos 90.
Ao mesmo tempo altamente dançante e viajante, o álbum de estreia - 'Stone Roses', de 1989 - enfileira petardos do início ao fim com uma mistura irresistível de rock psicodélico com pegada eletrônica que antecipou o movimento britpop da década de 90.
Já ‘Second Coming’, de 1994, foi injustamente taxado na época de decepcionante, talvez pela enorme expectativa após cinco anos de espera pelo segundo disco. Mas se não emplacou nenhum grande hit, tem faixas inspiradíssimas com a guitarra do genial John Squire mais solta, pesada e ao mesmo tempo mantendo o groove do primeiro álbum. Ouça na playlist ‘Driving South’, ‘Straight to the man’, ‘Good Times’, ‘Beggin You’ e abrindo ‘Break into heaven’, primeira do disco com seus mais de 11 minutos, da introdução lentinha até os solos com toque de Led Zeppelin no fim. Ao vivo, tenho certeza, vai lavar a alma dos fãs (tem na lista também as clássicas do disco de estreia).
Separado desde 96, o quarteto não confirmou se está preparando um terceiro álbum, mas deve apresentar faixas inéditas já nos shows de Manchester. Nos últimos anos, o baixista Mani tocou com o grupo Primal Scream, o vocalista Ian Brown lançou, 'My Way', em 2009, e o guitarrista John Squire, ‘Marshall's House’, em 2004. Que bang the drums!
Veja abaixo vídeo com os melhores momentos da coletiva que anunciou a volta do grupo, 'Waterfall' no programa de Tony Wilson, e Ian Brown cantando 'I wanna be Adored', na Escócia, em 2008.
Tom Waits – Bad as Me (2011)
Depois de tocar e cantar anos com Mick Jagger que não podia ter ‘satisfaction’, Keith Richards aparece no novo disco de Tom Waits, o recém-lançado ‘Bad as Me’, em duas músicas: ‘Last Leaf’, um dueto histórico ‘fim de noite clima balcão de bar’, e em ‘Satisfied’, uma das melhores faixas do álbum com letra que é quase uma homenagem atualizada ao clássico roqueiro: ‘I said I will have satisfaction / I will be satisfied /Before I’m gone’. E é nesse clima meio irônico-cafajeste da parceria com o Stone que Tom Waits faz mais um disco de inéditas, o primeiro desde ‘Real Gone’, de 2004, obrigatório para os fãs e no nível dos seus melhores trabalhos dos anos 80.
Além de Richards, ‘Bad as Me’ conta pelo menos mais quatro participações especialíssimas, duas em família: o filho Casey Waits, tocando bateria, percussão e banjo, e a mulher Kathleen Brennan, que divide composição e produção de todas as treze faixas do álbum. Estão lá também o guitarrista Marc Ribot, parceiro no clássico ‘Rain Dogs’ e o baixista Flea, do Red Hot, em ‘Raised Right Men’.
Com atmosfera freak-circense-cinematográfica de sempre, ‘Bad as Me’ faz bonito nas experimentações percussivas com Waits caprichando acima da média nas letras e arranjos. Mais uma bola dentro em uma discografia que já acumula 27 álbums ao longo de quase 40 anos de uma carreira sólida (seu disco de estreia, ‘Closing Time, é de 1973). Os melhores momentos de ‘Bad as Me’ são a acelerada ‘Chicago’, que abre o disco, a rockabilly ‘Kiss Me’, e ‘New Years Eve’, que fecha o disco com o acordeão marca registrada de Waits.
Vídeo abaixo mostra encontro de Tom Waits com Keith Richards e Ron Wood no projeto 'The Ghost of Tom Waits'.
The Good Ones - Kigali Y' Izahabu (2010)
Guitarrista e produtor de discos estourados como o recém lançado ’Tassili’, do Tinariwen, e ‘Rain Machine’, estreia solo de Kyp Malone, do TV on the Radio, Ian Brennan ouviu mais de 100 bandas durante sua passagem por Ruanda até chegar ao trio The Good Ones. E o encontro que aconteceu meio por acaso após dica de um músico local ganhou ares surreais.
‘Parecia cena de filme, dois homens vindo com uma guitarra do meio das sombras. Eles tocaram ‘Sara’ e em 30 segundos já tinham me conquistado’, lembra Brennan, no site da Dead Oceans, gravadora especializada em rock que abriu exceção no seu catálogo para ‘Kigali Y' Izahabu’, lançado em 2010. O disco ganhou quatro estrelas na revista Mojo e virou uma das grandes surpresas do ano.
Quando ouviu os Good Ones pela primeira vez, Brennan já estava na capital Kigali em Ruanda havia duas semanas. Sua missão era descobrir talentos em um país devastado por anos de guerra civil. Até então, o mais perto que ele havia chegado foram bandas pouco empolgantes de hip-hop e soul. ‘Era tudo muito comercial. Foi um músico que eu havia achado ‘ok’ que me falou sobre os Good Ones, que eu tinha que ouvi-los... e ele estava certo’, conta.
O disco ‘Kigali Y' Izahabu’ foi gravado em uma noite em um estúdio improvisado com apenas duas guitarras, sendo uma delas emprestada e outra com quatro cordas fazendo papel de baixo. Entre as influências do trio Adrien Kazigira, 47 anos, Stany Hitimana, também 47, e Jeanvier Havugimana, 38, todos sobreviventes do genocídio em Ruanda, estão Bob Marley, Santana e bandas de ‘zouk’ caribenho.
‘As músicas são escritas em um dialeto que nem todos em Ruanda entendem. Quando vimos a primeira transcrição ficou tudo melhor ainda, é extremamente poético’.
Veja abaixo o clipe oficial de ‘Sara’ com imagens de Ruanda.
8.9.11
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The Complete Lester Young Studio Sessions on Verve (1946 - 1959) + The Complete Billie Holiday and Lester Young (1937-1946)
Primeiro a chamar Billie Holiday de ‘Lady Day’, o saxofonista Lester Young ganhou da maior diva black do jazz um apelido à altura: President, ou, simplesmente, Pres. Quem já viu os dois em ação no superclássico ‘The sound of jazz’, exibido pela CBS dos EUA, em 1957, sabe que a dobradinha é talvez o melhor casamento entre sax e voz na história da música. O clima de cumplicidade e intimidade no palco é imbatível. Na banda brilham ainda Coleman Hawkins e Gerry Mulligan. Dá para ser mais cool?
Nascido no Mississipi, em 1909, e criado nos arredores de New Orleans, Lester Young foi um dos responsáveis por consolidar o sax como instrumento central numa jazz band nos 30 e 40. Depois viriam novas revoluções com Charlie Parker e John Coltrane, mas definitivamente Billie Holiday acertou em cheio na homenagem: Pres foi um gigante, liderou a passagem do bebop para o cool e gravou álbuns antológicos.
As sessões para a caixa da Verve são todas da sua fase posterior à Segunda Guerra Mundial. Para muitos críticos, um momento complicado em que os horrores do front prejudicaram seu desempenho como músico; outros acreditam que Pres esquecia tudo na hora do palco. Pela qualidade das gravações e intensidade dos solos, fico com a segunda opção. São oito discos, mais de 60 músicas e muitas parcerias históricas com Oscar Peterson, Buddy Rich e Roy Eldridge.
Veja abaixo outro clássico de Lester Young em vídeo: o curta ‘Jammin the Blues’, de 1944, dirigido pelo famoso fotógrafo Gjon Mili, que viraria referência ao revolucionar as gravações de shows e é uma espécie de avô dos videoclipes.
K. Frimpong & His Cubano Fiestas (1976-1977)
O nome do malinês Ali Farka Touré é quase uma unanimidade quando saem listas dos melhores guitarristas africanos. Mas os relançamentos desses dois discos dos anos 70 podem equilibrar a votação para o ganês Alhaji K. Frimpong, morto em 2005. Até janeiro deste ano, ‘K. Frimpong & His Cubano Fiestas’ (álbuns homônimos de 1976 e 1977, o primeiro conhecido também como ‘Blue álbum’) só eram encontrados a peso de ouro nas mãos de colecionadores. A outra opção era ouvir as músicas de Frimpong em coletâneas como ‘Ghana Soundz’, da Soundway, e ‘Strut’s Afro Rock’, da Strut, ambas gravadoras especializada em localizar pérolas da música africana. Mas, convenhamos, ficava um gostinho de quero mais.
Coube à gravadora de Minneapolis, Secret Stash, relançar os dois discos em vinil, em edição limitada, dando aos fãs a chance de ouvir com calma e qualidade o high-life com tintas de jazz desse guitarrista de solos funkeados e voz límpida e cheia de groove. Aliás, justiça seja feita, os metais dos Cubanos também incendeiam, com muita influência do funk de James Brown e Wilson Pickett. Veja abaixo o fundador da Secret Stash, Eric Foss, falando sobre impacto ao ouvir o disco pela primeira vez e como foi o caminho até o relançamento.
Tom Waits - Rain Dogs (1985)
Clássico dos anos 80, ‘Rain Dogs’ poderia facilmente ser trilha de cinema. Músicas como ‘Downtown train’, ‘Singapore’ e ‘Clap Hands’ são a cara (e a imagem) do seu criador, meio compositor, meio ator, entre com um jeito de Captain Beefheart, Frank Zappa, Howlin' Wolf e Jack Kerouac. Segundo álbum de uma trilogia iniciada por ‘Swordfishtrombones’, em 1983, e fechada quatro anos depois por ‘Franks Wild Years’, ‘Rain Dogs’, lançado em 1985, distancia para sempre o figuraço Tom Waits do que ele classifica como sua fase ‘pseudo-jazz-lounge’ dos anos 70.
O disco mais vendido entre os 25 da discografia de Waits marca uma virada na carreira rumo a um mundo underground, de personagens estranhos, percussão carregada e suja, cheia de buzinas, ruídos, acordeões, banjos, marimbas e pianos de bar. Com a voz gutural inconfundível do músico da Califórnia, hoje com 62 anos, ‘Rain Dogs’ tem uma aura quase surrealista de letras bizarras e protagonistas do naipe de uma prostituta de perna de pau, um dono de matadouro e chineses bêbados.
O estilo cinematográfico do disco (que tem a guitarra experimental de Marc Ribot e Keith Richards como convidado especial em ‘Big Black Mariah’, ‘Union Square’ e ‘Blind Love’) consolida Tom Waits como artista de um território híbrido entre a música, o cinema e o teatro. Quem não se lembra dele roubando a cena em filmes como ‘Down By Law’ (Jim Jarmusch), ‘Cottom Club (Coppola) e ‘Short Cuts’ (Robert Altman)? Waits foi ainda compositor de trilhas como ‘O fundo do coração’(outra parceria com Coppola) e ‘Uma noite sobre a Terra’ (mais uma com Jarmusch), e ganhou dois prêmios Grammy pelos discos ’Bone Machine’, de 1992, e 'Mule Variations', de 1999.
Sem gravar desde ‘Real Gone’, de 2004, Waits acaba de finalizar ‘Bad as me’. O disco sai em outubro em duas edições, uma com 13 canções e outra especial com três faixas bônus e um livro de 40 páginas. Para entrar no clima Tom Waits, veja abaixo trailer do superclássico em preto e branco ‘Down by law’, de Jim Jarmusch (com Roberto Benigni) + vídeo de apresentação do novo álbum. Depois é só ir na playlist.
7.7.11
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Hidden Orchestra - Night Walks (2010)
Documentário de rádio é uma arte pouca explorada no Brasil e uma das especialidades da britânica BBC. Foi lá que o escocês Joe Acheson apurou seu faro para sons, ruídos e ambientações antes de criar o quarteto Hidden Orchestra, uma das bandas revelações de 2010 com seu álbum de estreia, o viajandão, etéreo, hipnótico, intenso e cinematográfico ‘Night Walks’. Formado por Acheson, Poppy Ackoyd (violino, teclado) e dois bateristas, Tim Lane e Jamie Graham, o Hidden Orchestra é comparado ao também britânico e já estabelecido Cinematic Orchestra por suas colagens de percussão, cordas, vozes e metais, misturando elementos de jazz, rock, clássico, hip-hop e drum and bass. Mas a grande novidade de Acheson no Hidden Orchestra é sua preocupação em costurar climas e atmosferas a partir de instrumentos de verdade, orgânicos, e não apenas com sintetizadores.
Um ano após o lançamento de ‘Night Walks’, Acheson foi indicado ao Sony Awards como apresentador, produtor e compositor do projeto da BBC 'O som da neve e do gelo'. Então... parando aqui para refletir: um músico-documentarista que se destaca por um programa sobre o som da neve e do gelo, e que ainda estudou piano, canto, toca guitarra, baixo, percussão e bateria, no mínimo, saca muuuito de som, em todos os sentidos – literalmente.
No Hidden Orchestra, Acheson assina as dez músicas de ‘Night Walks’. O disco acabou entrando em todas as listas dos melhores álbuns de 2010 e até hoje rende turnês em festivais de jazz e rock. Depois de tocar ao lado de nomes fortes na cena instrumental e eletrônica como Bonobo e Jaga Jazzist, o Hidden Orchestra foi um dos destaques do Glastobury, no final de junho, e está com agenda cheia durante o verão europeu com apresentações marcadas na Alemanha, Suíça, Inglaterra e França.
Pois separa um tempinho, arruma um lugar calmo, coloca o fone ou aumenta o volume e se prepara para um som ao mesmo tempo relaxado e intenso. Trilha sonora para um filme na sua cabeça.
Black Keys - Brothers (2011)
Um rock pesado com pitadas de blues e soul em tons psicodélicos. A mistura explosiva rendeu ao Black Keys nada menos que dois Grammys e posto cativo em quase todas as listas de melhores discos de 2011 com ‘Brothers’. Formado em Ohio, o duo Patrick Carney (bateria) e Dan Auerchbach (guitarra e vocais) - isso mesmo, toda a sonzeira rock-blues do Black Keys sai de apenas dois instrumentos - chegou ao seu sexto álbum tendo emplacado hits em filmes como ‘Escola de rock’, em seriados como ‘The OC’ e ‘Gossip girl’, e até nos games 'Fifa' e ‘Grand theft autho’, além de participações em todos os grandes festivais, como Coachella, Lolapallooza e Bonnaroo. Bebendo na fonte de Jimi Hendrix e Led Zeppelin, eles fazem um rock groovy cru e despretensioso que lembra o também duo White Stripes. Mas é um estilo tão próprio que qualquer comparação serve mesmo só como parâmetro. Basta conferir as repercussões na mídia especializada. Para a 'New Yorker', 'Brothers faz a terra tremer'; para o 'Observer', 'é o melhor álbum autêntico de rock em anos'.
Como não dá para desperdiçar os petardos envenenados do repertório do White Stripes, a playlist inclui também músicas de outros discos. Vai direto em ‘Tighten Up’, ‘Everlasting light’ e ‘Ten cent pistols’ e segura a onda que a pancada é forte. Veja abaixo a clássica 'Howlin' for you’ no David Letterman.
Bassekou Kouyate – Segu blue (2006) I speak Fula (2010)
Bassekou Kouyate já tocou com U2 e Santana, ganhou elogios de nomes do rock e da música eletrônica, como Damon Albarn e Fat Boy Slim, e hoje forma junto com Toumani Diabaté e Ali Farka Touré o trio de maior destaque internacional da riquíssima música do Mali. Mestre do ngoni, instrumento criado no oeste da África e ancestral do banjo, Bassekou começou a chamar atenção na Europa e EUA ao gravar ‘Kulanjan’, em 1999, parceria entre Taj Mahal e o mestre da kora Diabaté. Impressionado com a técnica de Bassekou, primeiro em seu país a tocar o ngoni como se fosse uma guitarra, o multi-instrumentista de NY não teve dúvidas: ‘É um gênio, prova viva que o blues nasceu no Mali’. De lá para cá, as parcerias se multiplicaram até o convite para gravar o primeiro disco solo, ‘Segu blue’, pelo selo alemão Out Here Records. O álbum de 2006 conquistou a mídia especializada e abriu portas para turnês. Quatro anos depois, Bassekou voltou com ‘I speak Fula’ dando mais um passo rumo a sua consolidação no mercado internacional. Ouça na playlist músicas de 'Segu blue', 'I speak Fula' e também de ‘Kulanjan’. E abaixo, Bassekou em ação no Jools Holland e ao vivo com Taj Mahal.
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